| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

O CANGAÇO EM FOCO
Desde: 28/02/2011      Publicadas: 854      Atualização: 09/11/2013

Capa |  ARTE & CULTURA DO CANGAÇO  |  ARTIGOS DE OUTROS AUTORES  |  CORDEL E POESIA SERTANEJA  |  CRÔNICAS  |  DESTAQUES  |  ESTUDOS SOBRE O CANGAÇO  |  EVENTOS SOBRE O CANGAÇO  |  GUERRAS ADJACENTES AO CANGAÇO  |  HISTÓRIA DO CANGAÇO  |  HISTÓRIAS SERTANEJAS  |  JORNALISMO & CANGAÇO  |  LITERATURA & CANGAÇO  |  LIVROS A VENDA  |  MEUS ARTIGOS  |  MEUS COMENTÁRIOS  |  MULHERES NO CANGAÇO  |  NAS ANDANÇAS DO MEU LIVRO  |  PERSONAGENS DA ÉPOCA  |  TEXTOS DA ÉPOCA DO CANGAÇO


 ARTIGOS DE OUTROS AUTORES

  23/03/2013
  0 comentário(s)


COMENTÁRIO AO LIVRO LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE

Acabei de ler o seu livro intitulado "Lampião contra o Mata Sete". A seguir, falo em linguagem impessoal.

COMENTÁRIO AO LIVRO LAMPIÃO CONTRA O MATA SETECOMENTÁRIO AO LIVRO LAMPIÃO CONTRA O MATA SETE
Por Martinho Nunes da Costa

Prezado amigo Archimedes Marques,

Acabei de ler o seu livro intitulado "Lampião contra o Mata Sete". A seguir, falo em linguagem impessoal.

Constitui tal obra um vigoroso trabalho de pesquisa e análise, abordando as práticas e costumes da vida no cangaço dos tempos de Lampião. Um resposta arrasadora e convincente à tese defendida pelo juiz aposentado Pedro de Morais no livro "Lampião, o Mata Sete", cujo texto não vai além de uma desastrosa tentativa de denegrir a masculinidade de Lampião e, de quebra, enlamear Maria Bonita e suas relações amorosas com Virgulino.

O livro "Lampião contra o Mata Sete" deixa muito claro e comprovado, por intermédio de argumentos irrespondíveis, e pela exibição de extensa pesquisa feita em grande quantidade de estudos dos mais respeitados escritores da saga do cangaço, que o livro Lampião, o Mata Sete, não vai além de uma pantomima extravagante de quem procura notoriedade e, para tanto, é capaz de recorrer ao recurso do ultraje à memória alheia.

Como demonstra o pesquisador Archimedes, o Sr. Pedro de Morais, adotando um maquiavelismo canhestro, procura arrasar grande parcela do pouco que há de positivo na biografia de Lampião, qual seja: a sua reconhecida masculinidade, e a comprovada relação amorosa com Maria Bonita, cujo comportamento afável e equilibrado fez baixar, sobre Lampião e o respectivo bando, uma aura de relativa humanização e de sociabilidade, com destaque para o respeito às mulheres.

A avaliação crítica, contextualizada na obra Lampião contra o Mata Sete, desconstrói, por inteiro, a armação engendrada pelo juiz aposentado, o qual, na ânsia de denegrir o que resta de bom no comportamento social e viril de Virgulino, "vai com excessiva sede ao pote", ao tentar pintá-lo como gay, impotente sexual, aquiescente de supostas relações extraconjugais da companheira, dentre outros disparates.

Quem conhece os hábitos dos sertanejos da primeira metade do século passado, sabe da completa impossibilidade de um homossexual ingressar em um bando de cangaceiros, onde a macheza era condição sine qua non, e invariavelmente levada às últimas consequências. Imagine-se então um homem - já reconhecidamente afeminado desde a juventude, como tenta fazer crer Pedro de Morais - conseguir ser aceito em um bando disciplinado e rude de cangaceiros, como era o de Sinhô Pereira.

Naquela época, em qualquer agrupamento de sertanejos, o relacionamento heterossexual era conduta exigida de forma inflexível, ficando, os que não se enquadravam nesse dogma informal, sujeitos à mais completa marginalização. No cangaço, portanto, homossexuais não seriam admitidos de forma alguma; se alguém tentasse infringir esse costume de intolerância pétrea poderia ser justiçado de modo sumário.

Acrescente-se a isso, o fato de um Lampião gay passar a ser chefe inconteste do bando, ganhar notoriedade nacional por sua comprovada coragem e bem sucedidas façanhas, e ter coroado tudo com a atitude de atrair uma mulher para sua companhia, apesar de, ainda por cima, ser emasculado... E, na sequência, deixa-a fazer sexo com os homens por quem ele tinha interesse sexual. Tudo isso teria ocorrido com Lampião, com aprovação clara de todo o bando, e sem que ninguém jamais opusesse qualquer crítica ou assumisse alguma atitude de desrespeito ou rebeldia à sua liderança.
Além do mais, a ser tudo verdade, todos os homens do bando teriam ficado calados para sempre a respeito do assunto, pois ninguém, até os dias de hoje, ficara sabendo do ocorrido. Exceto Pedro de Morais que, inexplicavelmente, quase um século depois, num passe de mágica, lança essa tragicomédia à luz, sem citar uma única fonte de consulta (segundo Archimesdes), esquecendo-se de advertir os leitores de que tudo não passava de ficção.

Torna-se necessário registrar, igualmente, que, conforme ainda afirma Pedro de Morais, a fama de Virgulino efeminado, quando adolescente, teria se espalhado por todo o Pajeú (região de Pernambuco onde fica o atual município de Serra Talhada, no qual Virgulino nasceu e viveu até partir para a vida no cangaço). Mas, além de o ex-juiz não apresentar uma única testemunha ou registro fático disso, nenhuma outra pessoa do resto do Brasil, estranhamente, jamais soube de tal notícia, nem mesmo como bisbilhotice; inclusive, nem um só dos muitos pesquisadores sérios que relataram a saga de Lampião duvidou da masculinidade deste.

Até o advento de Pedro de Morais como pesquisador-escritor, qualquer das muitas obras sobre Lampião pesquisadas por Archimedes Marques mencionou algum conhecimento da existência de desconfiança, por mínima que fosse, de falta de masculinidade de Lampião, assim como da suposta emasculação, bem como da pretensa relação sexual espúria dentro do respectivo bando e fora deste.
Além dos usos e costumes da época terem levado à mais completa intolerância a tudo que se referisse à homossexualidade, todos os fatos apurados a posteriori deixam claro que a admissão, no cangaço, de pessoa portadora de comportamento minimamente afeminado era uma impossibilidade. E, além do mais, aceitar tal indivíduo como chefe era uma impossibilidade absoluta.

Há milênios, a história da humanidade tem registrado o costume inato aos seres humanos de, quando reunidos em agrupamentos, agremiações, bandos, sociedades, etc., assumirem uma postura destinada a distingui-los dos demais. Esse comportamento revestiu-se de atitudes e iniciativas as mais diversas: elegantes algumas poucas, bizarras outras, e até chocantes.

Os guerreiros vikings caracterizavam-se por seus elmos encimados por um par de chifres. O senhores feudais e seus soldados notabilizaram-se por suas armaduras de metal, espadas longas e pesadas, capacetes com penachos coloridos, escudos com brasões de família, bandeiras e bandeirolas, com destaque para as cores representativas de cada clã. A grei dos piratas destacava-se pelos cabelos longos amarrados por panos de cores berrantes, brincos nas orelhas, trajes leves e coloridos, espadas curtas e facas de todos os tipos, além é claro, da bandeira negra - celebrizada pelo cinema -, onde destacavam-se, na cor branca, uma caveira sobre duas tíbias cruzadas.

Até o papa e os cardeais, com seus barretes e vestes talares de cerimônia, onde a cor púrpura (colorido cambiante entre vermelho escuro e violeta) predomina, com destaque para os sapatos vermelhos do pontífice, utilizam esses diferenciais, além de muitos outros, para dar destaque à própria magnificência.

O nosso vaqueiro destaca o seu grupo com o gibão e o chapéu de couro, este certamente feito à moda dos elmos de metal dos soldados holandeses, que estiveram rondando por todo o Nordeste durante mais de vinte anos.

Então, chegou a vez do cangaço. Os cangaceiros não fugindo à regra, e ao se profissionalizarem sob a batuta do competente e criativo chefe, Lampião, o ícone do cangaço, seguindo-lhe as pegadas, passaram a usar cabelos compridos ("moda" quiçá surgida por força das circunstâncias), embornais, perneiras e cartucheiras bordadas com distintivos coloridos, bandoleiras, bainhas e chapéus quebrados, todos cravejados por adereços e moedas de metais preciosos. Também, como sempre ocorreu e ocorre pelo mundo inteiro, os chefes, dispondo de mais recursos, distinguiam-se dos demais pela profusão e requinte dos ornamentos.

No caso dos cangaceiros, o costume ainda tinha o condão de possibilitar uma das poucas oportunidades de "consumo" dos bens mais preciosos obtidos nas suas costumeiras pilhagens, além de constituir uma forma de exibicionismo muito comum aos contemplados com a riqueza fácil. Igualmente, cangaceiro que se prezasse não poderia deixar por menos: teria ele de ir à luta em busca da riqueza dos abastados e poderosos e, com isso, também demonstrar coragem e habilidade no combate, além de competência e esperteza.

A partir deste momento, passaremos a apresentar, de modo especial, transcrições do livro "Cangaceiros", lançado na França em 2005, e no Brasil em 2006, obra iconográfica elaborada por Élise Jasmin, "historiadora francesa cujos estudos tratam essencialmente da análise de fenômenos históricos, sociais e culturais por meio da fotografia". Selecionamos justamente matérias atinentes ao desmentido de Archimedes Marques aos argumentos usados por Pedro de Morais para imputar a Lampião o epíteto de gay, além de muitas perversões sexuais.

Vejamos o que diz o respeitado historiador Frederico Pernambucano de Mello na apresentação do citado livro "Cangaceiros" (pág. 12):

"Habitando um meio cinzento e pobre, o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza. Satisfez seu anseio de arte, dando vazão aos motivos profundos do arcaico brasileiro. E viveu sem lei nem rei em nossos dias, deitando uma ponte sobre cinco séculos de história. Foi o último a fazê-lo com tanto orgulho. Com tanta cor. Com tanta festa".

Aplicando-se a esta descrição realística as ideias preconcebidas e intolerantes de Pedro de Morais, poder-se-ia afirmar que, no geral, os cangaceiros não iam além de um trupe de gays.

Ainda Frederico P. de Mello (pág. 11):

"Como explicar o apuro ornamental do traje do cangaceiro, nos bordados de cores vivas e harmoniosas dos bornais, nos frisos e debruns contrastantes das cartucheiras, correias, coldres, perneiras, ou nas abas arrebitadas dos grandes chapéus de couro, com muito ouro e prata em meio a signos-de-salomão, estrelas de ponta, cruzes-de-malta e flores-de-lis,...? Como entender as notáveis afetações estéticas desse traje, inconfundível em sua imponência e escancarado no revelar a identidade de quem o porta, senão à forma de vida adotada?..."

Esse último comentário de F. P. de Mello, pelo reacionarismo de Pedro de Morais, sacramentaria, não só para Lampião, mas a todos os homens do seu bando, a pecha da prática de homossexualismo.

Diferentemente do tratamento ultrajante (para os padrões do tempo do cangaço, é bom que se diga) dado por Pedro de Morais a Lampião e, por extensão, a todo o seu bando - desprezando a vigência prática do severíssimo código de honra de macheza, condição particular do cangaço -, Élise Jasmin, fazendo justiça aos cangaceiros e à sua epopeia, afirma à página 15 de "Cangaceiros":

"Aqueles que poderiam ter sido considerados personagens de pouca envergadura, cuja zona de influência e cujo poder de nocividade pareciam restritos a uma região miserável, foram, em seu tempo, os reveladores das falhas de um sistema político, econômico e social, da incapacidade do Brasil de forjar sua unidade, numa época em que a sociedade se acreditava moderna, unificada e coerente".

Tais eram a amplitude e seriedade do labéu atribuído à homossexualidade, naquele tempo, que, parafraseando Gustavo Barroso quando afirmou ("Cangaceiros", pág. 17), quanto às questões de honra: "No sertão, 'Quem não se vinga está moralmente morto'", podemos dizer, em relação ao comportamento homossexual, então rotulado como profundamente desonroso: no sertão, quem fosse homossexual, estava moralmente morto.

Constata Élise Jasmin, com brilhante senso de historicidade, assinalando:

Na página 17 da obra citada:

"De maneira geral, a entrada no cangaço de indivíduos de famílias de criadores de gado ou pequenos proprietários de terras correspondia à necessidade de vingar uma afronta, reparar uma injustiça, e reconquistar desta forma sua honra ou a honra de suas famílias, fazendo uso da violência. Vítimas da parcialidade da justiça a serviço de potentados locais e desejosos de fazer justiça pelas próprias mãos entravam no cangaço para recuperar sua respeitabilidade".

- Lampião foi um dos exemplos dessa habitualidade. A diferença é que ele gostou da nova vida e ... profissionalizou-se...

Na página 18:

"Nascido por volta de 1898, na região do Pajeú, berço do cangaço e de onde saíram seus ilustres predecessores - Cabeleira, Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Casimiro Honório -, Lampião é, inicialmente, fruto de uma sociedade marcada pela violência, na qual é forte a tradição de banditismo de honra. De acordo com as versões geralmente aceitas, Lampião teria entrado no cangaço com dois dos seus irmãos, a fim de vingar o assassinato de seu pai. Logo assume a liderança desse movimento, que vai revolucionar em vários sentidos. Manipulador, estrategista, dotado de um senso inato de comunicação surpreendente para a época, Lampião rapidamente põe em cena um banditismo de ostentação, em que o enfeite, o ornamento, o fausto dão destaque particular aos crimes e pilhagens perpetuados pelos bandidos".

Na página 19:

"Lampião foi o homem mais procurado de todo o Brasil à sua época, e mesmo assim deixava-se ver constantemente. Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua imagem - e aí reside sua grande originalidade. Teatralizou sua vida, utilizou modos de comunicação da modernidade que não faziam parte de sua cultura original, principalmente a imprensa e a fotografia. Vestidos de maneira extravagante, com roupas de cores berrantes, chapéus imensos, enfeitados com medalhas, exibindo anéis, colares e broches, Lampião e seus cangaceiros sempre manifestaram o gosto pela ostentação".

- Hoje, pelos muitos séculos de existência e de uso em público, os trajes, bem como os dos cardeais e até os da Guarda Suíça do Vaticano não são considerados berrantes, ostentatórios. Aquelas tonalidades púrpura (entre vermelho escuro e violeta) das vestes talares dos cardeais, as "fardas" da Guarda extravagantemente listadas com cores fortes e contrastantes, os trajes de cerimônia do papa, igualmente talares, suntuosos, coloridos e enfeitados, todo esse aparato de fausto e pompa não causam choque algum - do ponto de vista moral e estético - porque as pessoas que assim se vestem gozam de todo o respeito da sociedade e e os seus vestuários constituem tradição milenar.
Mas não deixam de ser chamativos e denotar esbanjamento, revelando um intento preconcebido de chamar a atenção e garantir destaque, como sempre se fez em todas as cortes e sociedades ricas do passado.

Por que então Lampião, no desejo de demonstrar sua importância, deveria fugir a uma regra universal? Era personagem importante pelo temor que gerava nos sertões. Dispunha de bom acervo em moedas de prata e ouro, jóias e dinheiro, resultantes das constantes pilhagens. Não tendo como converter tal riqueza em investimentos e em consumo dos produtos à venda no mercado, destinou as peças mais nobres à exibição por onde podia: nos dedos das mãos, chapéus, vestuário, equipamentos, etc., como se fossem troféus de um cangaceiro rico e poderoso. Tomados como distintivos do cangaço, tais adereços caíram no gosto de todos os membros do bando, passando a ser encarados como se fossem partes de brasão daquela "profissão" agora encarada como um modo de vida.

Na página 22:

"Os homens do sertão não se restringiam à guarda e ao abate dos animais: cortavam e costuravam suas próprias vestimentas, uma prática da sociedade pecuária. Sabiam também confeccionar toda sorte de objetos e de vestimentas de couro, sem que por isso se questionasse sua virilidade. Bem antes de sua entrada no cangaço, Lampião costurava suas roupas e sabia bordar à máquina com perfeição. (...) [destaque nosso].

Com a sua entrada no cangaço, graças a seus talentos de bordadeira, e graças também à sua criatividade, Dadá foi encarregada de confeccionar as vestimentas de Lampião e de Corisco. Foi ela quem mudou radicalmente os motivos e a confecção de seu guarda-roupa. A partir de 1932, lançou a moda dos motivos bordados em couro branco sobre os chapéus, das flores em tecido colorido bordadas sobre as bolsas, dos peitorais e dos cinturões largos. Desde então, todos os cangaceiros vestiam-se com esses novos trajes".

Na página 23:

"Não era apenas com detalhes de sua indumentária que Lampião mostrava ser cuidadoso: mesmo os objetos corriqueiros deviam ser enfeitados - por exemplo, seu cantil de alumínio, recoberto por tecido bordado. Por fim, as bainhas dos punhais, as cartucheiras, as alças dos fuzis vinham completar a riqueza desse traje. Um artigo do Diário de Pernambuco, publicado no dia 30 de maio de 1935, menciona que os cães dos cangaceiros não escapavam a essa moda de ostentação: Dourado, o cão de Lampião, que seria morto por uma força volante, usava uma 'preciosa coleira com incrustações em ouro e prata'."

Nas páginas 72 e 135:

"É um cangaceiro rico e poderoso... As estrelas do seu chapéu são imensas; ele exibe dois punhais, suas perneiras são ricamente decoradas [com espalhafato, como se nota na foto da pág. 72], e ele usa anéis em todos os dedos".

Na página 28:

"Quatro fotografias divulgadas em muitos jornais marcaram especialmente os contemporâneos de Lampião, e foram objeto de múltiplos comentários.

Em uma delas, Lampião aparece costurando à máquina. Essa imagem, que ilustra uma atividade banal para os cangaceiros, pode ser vista como um símbolo: Lampião, que costura sua vestimenta, constrói e elabora a identidade visual de seu grupo. Sem essas vestimentas com bordados tão específicos, não há cangaceiros. Essa fotografia, evidentemente, foi interpretada de outra maneira pelos jornalistas do litoral do Nordeste e do Rio de Janeiro [destaque nosso].

Na sociedade do litoral do Nordeste, e mais ainda na das cidades do Sul, a costura era tarefa das mulheres. Nada mais engraçado do que um guerreiro sanguinário entregando-se a uma atividade que, a seus olhos, fazia duvidar de sua virilidade".

- Os jornalistas das cidades grandes, naturalmente para agradar aos seus patrões como ainda fazem hoje, criaram essa burla e induziram a historiadora Élise Jasmin ao erro. Seguramente até meados dos anos 1970, havia uma divisão bastante definida no exercício da arte da costura, especialmente no Nordeste, do sertão ao litoral: aos homens, os alfaiates, cabia a confecção da roupa masculina; às mulheres, as costureiras, tocava costurar o vestuário feminino. Essa dualidade de especializações só foi modificada e esvaziada com o advento da indústria de confecções, a qual reduziu drasticamente o mercado para as costureiras e praticamente extinguiu a profissão de alfaiate.
Deste modo, a encenação promovida pelos jornalistas, para satisfazer a elite conservadora, com certeza caiu no vazio. Pois, homem confeccionando ternos masculinos era uma cena trivial em qualquer cidade do Nordeste, até recentemente. No tempo de Virgulino, então, a única fonte de roupa masculina, nesta região, era a alfaiataria, onde só trabalhavam homens. E essas confecções artesanais tinham uma particularidade: geralmente localizavam-se em pisos térreos, e muitas funcionavam de portas abertas, para melhor atrair clientes.

Logo, um homem aparecer em fotografia, costurando roupa masculina, podia causar apenas curiosidade, se a profissão dele fosse outra bem diferente e não se soubesse dessa nova habilidade.
Para não andarem como maltrapilhos, os cangaceiros teriam de confeccionar o próprio vestuário nos recônditos da caatinga; e, como era natural, só eles poderiam ali estar, situação que os obrigava fazer as próprias roupas, sob pena de terem de andar seminus. Um antecedente dessa atividade, e que serviu de treinamento para os varões das áreas de pecuária, na caatinga nordestina, foi o trabalho relativamente duro e exaustivo de produzir as vestes de couro dos vaqueiros.

- Quanto à interpretação enviesada - dada por jornalistas à foto de Lampião no ato de costurar a própria roupa -, pode-se afirmar sem medo de errar, que ela se fundamentou em razões idênticas às que motivaram o juiz aposentado Pedro de Morais a tentar carimbar Lampião como gay: preconceito; elitismo; interesse em agradar o estamento conservador, ao apresentarem-se como voluntários para a missão de banir da memória popular o reconhecimento de Lampião como herói dos sertanejos.

Na página 28:

"Uma segunda fotografia representa Lampião sendo penteado por Maria Bonita. O tema é insólito, mas a ternura que une os dois protagonistas transparece. É uma imagem de intimidade amorosa... Ser cangaceiro e estar apaixonado não era uma contradição, muito pelo contrário. Mas o que mais espantou os contemporâneos de Lampião foi a fotografia que o representava lendo. Lampião fazia questão de ser fotografado com um livro ou uma revista nas mãos, lendo artigos que se referiam a ele. (...) e um artigo do Diário de Pernambuco, publicado em 20 de fevereiro de 1937, menciona a preferência de Lampião por romances policiais e, em particular, pelos de Edgard Wallace e de Georges Simenon.

Incontestavelmente, a fotografia que mostra Lampião celebrando o ofício religioso para seus companheiros ajoelhados é a que mais impressiona os jornalistas".

- O boato de não terem havido relações amorosas e sexuais entre Lampião e Maria Bonita, contido no livro "Lampião, o Mata Sete", sofreu mais um duro golpe com a interpretação dada por Élise Jasmin, mercê da sua especialização em iconografia, à foto de Maria penteando o seu companheiro. Igualmente, chama a atenção o interesse de Lampião pela leitura, e até por escritores estrangeiros, além do ato de conduzir ofícios de religiosidade em meio ao próprio grupo de cangaceiros.

- Neste ponto, veio-me à memória um pormenor que me chamara a atenção, quando lia uma das muitas entrevistas dadas pelo ex-cabra de Lampião, Volta Seca, no final dos anos de 1950. Arguido por um entrevistador, como se explicava ter sido Lampião, ao mesmo tempo, perverso e sanguinário, e religioso devoto, Volta Seca retrucou por meio desta síntese polêmica mas eloquente: "Quanto mais religioso mais perigoso".

Na página 32:

"Imediatamente após o anúncio da morte de Lampião em Angico, alguns jornalistas em missão no sertão relataram que inúmeros sertanejos não acreditavam nessa morte. A exibição da cabeça de Lampião não foi prova suficiente de seu desaparecimento.

- A respeito da morte de Lampião, tenho esta historieta insólita para contar, e provocar um desafio às curiosidades sobre a história desse líder do cangaço -

Esta narrativa me foi feita, por volta do ano de 1962 ou 1963, na cidade de Sertânia-PE (onde residi por 6 anos, a serviço do BNB), pelo amigo e juiz de direito daquela comarca, Dr. Nelson Negreiros Ferreira (que não sei se ainda está entre nós). O Dr. Nelson, homem de conduta pessoal e profissional exemplar, de credibilidade inatacável, ao final da carreira veio a ser Juiz de Menores em Recife. Nasceu no município paraibano de Conceição do Piancó que - por localizar-se após as altitudes do Planalto da Borborema, e pelas proximidades de Serra Talhada, terra de Lampião - esteve sempre na rota deste quando se dirigia com seu bando à Paraíba, bem como ao Ceará e Rio Grande do Norte. Em decorrência dessa localização estratégica, Conceição foi reduto de vários coiteiros de Lampião.

Mas, vamos à narração do Dr. Nelson - Segundo este, um caminhoneiro de Conceição (cujo nome, para mim, se perdeu no tempo), lá pelos fins dos anos 1940, estava na labuta do transporte do arroz de safra de uma região erma de Mato Grosso. Ao parar num posto para abastecer o caminhão, percebeu um homem idoso, magro e empertigado aproximar-se olhando a placa do veículo (a qual era de Conceição do Piancó-PB). Ao preparar-se para seguir viagem em direção à afastada zona rural produtora de arroz, o homem de cabelos brancos veio até ele e, dizendo que tinha como pagar, perguntou se poderia levá-lo até um pouco mais à frente. Recebendo resposta afirmativa, entrou na cabine do veículo e seguiram viagem por uma estrada de terra. Durante bastante tempo, por volta de umas duas horas, permaneceram sem trocar palavra. De repente, o desconhecido pergunta-lhe: "O senhor é mesmo de Conceição do Piancó?" Em seguida ao susto do motorista e à confirmação recebida, retrucou: "O senhor conhece fulano de tal (esse nome também esqueci, infelizmente)?" Mais surpreso ainda o condutor do veículo replicou: "Ele é meu pai; o senhor conhece ele?" "Conheço, ...conheci ele faz tempo...", e trancou-se em copas. O caminhoneiro, atordoado com a brusca surpresa e bastante temeroso, preferiu não pedir qualquer esclarecimento ao estranho, e passou a dirigir com um olho na estrada e outro no misterioso homem. Mais à frente, o ancião pediu para parar. Ao gesto de tirar o dinheiro para pagar, foi prontamente dispensado disso, ao que agradeceu, descendo rapidamente do veículo. E, já se virando para entrar pelo matagal, voltou a encarar o caminhoneiro e falou secamente: "Diga a seu pai que Lampião não morreu!"

O dono do veículo, cujo pai havia sido amigo e um dos principais coiteiros de Lampião no município de Conceição do Piancó, acelerou ao máximo para afastar-se dali o mais rápido possível.
Esta, a história que foi contada ao Dr. Nelson por pessoa de sua confiança, segundo me asseverou. De minha parte, nunca duvidei da palavra daquele conceituado e respeitado membro do Judiciário. Entretanto, o acontecimento mais se assemelha àquelas muitas lendas a respeito de ídolos populares (guerreiros, artistas, cantores, etc.), de quem muitas pessoas não aceitam o desaparecimento. Já quanto aos pesquisadores, isso pode constituir um desafio, onde não há nada a perder: se confirmada a história, ganha-se a consagração; se não, tem a primazia de apresentar as conclusões de que se tratava apenas de uma história fantasiosa.

Finalmente, à exceção da história de que Lampião não teria morrido em Angico, todo o conteúdo deste trabalho tem a finalidade de fazer uma rápida apreciação e trazer mais alguns fundamentos à importante obra "Lampião contra o Mata Sete", do pesquisador e delegado Archimedes Marques. Além do desmonte, uma a uma, das invencionices plantadas no "Lampião, o Mata Sete", do juiz aposentado Pedro de Morais, a extensa pesquisa levada a efeito por Archimedes teve o condão de sintetizar um vasto universo de obras de peso sobre a história do cangaço. Ler o livro de Archimedes é ter acesso a um estudo analítico das muitas facetas do bando de Lampião, afora obter a oportunidade de assenhorear-se das informações e do pensamento dos mais acreditados pesquisadores do cangaceirismo nordestino.

Em conclusão, pode-se ainda considerar que o livro do ex-juiz Pedro de Morais teve um ponto positivo: provocou o surgimento da obra "Lampião contra o Mata Sete".

Martinho Nunes da Costa
  Autor:   Martinho Nunes da Costa


  Mais notícias da seção OUTROS no caderno ARTIGOS DE OUTROS AUTORES
17/07/2012 - OUTROS - LAMPIÃO EM CUBA
Francisco Félix - Cap. Virgulino, como alguns me chamam no trabalho."...
18/06/2012 - OUTROS - A ÚLTIMA CEIA DE LAMPIÃO
Era por volta da segunda dezena de julho de 38, na Gruta do Angico, nas beiradas do Velho Chico, nas terras da povoação sergipana de Nossa Senhora da Conceição do Poço Redondo, tendo o município alagoano de Piranhas do outro lado, um pouco mais à esquerda....
30/04/2012 - OUTROS - DESCOBERTA EM JEREMOABO UMA IRMÃ DO CANGACEIRO CRIANÇA.
Jeremoabo é uma cidade histórica e muito antiga, durante a Guerra de Canudos a cidade serviu de base para uma das companhias do Exército que atacaram o Conselheiro e os Conselheiristas. ...
21/12/2011 - OUTROS - La Revolucion Sertaneja!
Virgulino Ferreira, o Lampião. Cabra macho, o terror dos sete mares (quer dizer, das sete secas) do semiárido nordestino. Temido e amado na mesma estranha proporção....
04/11/2011 - OUTROS - RETRATO DE JARARACA
Para Roland Barthes, "toda imagem é, de certo modo, uma narrativa"[i]. Todo ícone sintetiza, na tessitura lacônica de suas malhas, uma história. A imagem, independente do sistema semiótico a que pertença, substitui uma narrativa....
15/08/2011 - OUTROS - O JORNAL DE LAMPIÃO
A garota da capa não é uma miss e também não é brasileira, ela é a modelo e atriz americana "Ann Evers" no texto da capa diz o seguinte: A sereia e sua rede...Ann Evers exhibindo um formoso modelo praiano em Santa Mônica, Califórnia (vide página 32)....
17/06/2011 - OUTROS - O JULGAMENTO DE LAMPIÃO
O JULGAMENTO DE LAMPIÃODivagações entre o real e a utopia...
26/05/2011 - OUTROS - Neta de Lampião e Maria Bonita em Aula Inaugural
Para dar início à Semana de Integração, a Uesb começa o semestre letivo resgatando a história do Nordeste brasileiro. A Aula Inaugural que começou hoje pela manhã no campus de Jequié teve como palestrante a neta de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião) e Maria Bonita....



Capa |  ARTE & CULTURA DO CANGAÇO  |  ARTIGOS DE OUTROS AUTORES  |  CORDEL E POESIA SERTANEJA  |  CRÔNICAS  |  DESTAQUES  |  ESTUDOS SOBRE O CANGAÇO  |  EVENTOS SOBRE O CANGAÇO  |  GUERRAS ADJACENTES AO CANGAÇO  |  HISTÓRIA DO CANGAÇO  |  HISTÓRIAS SERTANEJAS  |  JORNALISMO & CANGAÇO  |  LITERATURA & CANGAÇO  |  LIVROS A VENDA  |  MEUS ARTIGOS  |  MEUS COMENTÁRIOS  |  MULHERES NO CANGAÇO  |  NAS ANDANÇAS DO MEU LIVRO  |  PERSONAGENS DA ÉPOCA  |  TEXTOS DA ÉPOCA DO CANGAÇO