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O CANGAÇO EM FOCO
Desde: 28/02/2011      Publicadas: 854      Atualização: 09/11/2013

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 ESTUDOS SOBRE O CANGAÇO

  16/03/2011
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Monografia: Literatura de Cordel sobre O Cangaceiro Lampião

A chamada literatura popular vem sendo cada vez mais estudada no âmbito acadêmico. Testemunha disso é o número de obras versando sobre o tema que a cada ano é lançado no mercado editorial. Da mesma forma, também a quantidade sempre crescente de trabalhos em torno da temática nos congressos literários e lingüísticos confirma a afirmação de que a literatura popular tornou-se um promissor objeto de estudo científico.

Monografia: Literatura de Cordel sobre O Cangaceiro Lampião
Monografia: Literatura de Cordel sobre O Cangaceiro Lampião
Tânia Maria de Sousa Cardoso

I - APRESENTAÇÃO

A chamada literatura popular vem sendo cada vez mais estudada no âmbito acadêmico. Testemunha disso é o número de obras versando sobre o tema que a cada ano é lançado no mercado editorial. Da mesma forma, também a quantidade sempre crescente de trabalhos em torno da temática nos congressos literários e lingüísticos confirma a afirmação de que a literatura popular tornou-se um promissor objeto de estudo científico.

Muitas universidades, seguindo essa tendência de crescimento do interesse pela literatura popular, vêm criando linhas de pesquisa voltadas para a reflexão, discussão e equacionamento de questões relacionadas com o tema. Com isso, autores e obras até pouco tempo marginalizados pelas instituições de ensino superior, convertem-se em alvo da perquirição científica. É bem este o caso de Patativa do Assaré, cuja morte recente somente acirrou o interesse dos pesquisadores por conhecer a genialidade de um autor que em nada deixou a dever a muitos dos nomes já consagrados no meio acadêmico.

É nessa perspectiva que situamos o caso da literatura de cordel, uma modalidade narrativa até pouco tempo definida apenas a partir de marcas gerais, e em geral desabonadoras, como a má qualidade da impressão, o pouco caso com a "correção" lingüística, a presença marcante da oralidade, o fato de ser tradicionalmente vendida em feiras e o tipo de consumidor, em geral pessoas de baixo nível escolar, cuja linha de interesses estabelece a temática característica dos folhetos " casos, em geral jocosos que beiram, não raro, o escatológico.

A mudança no que tange à recepção do cordel é ressaltada pelo professor Joseph Luyten em sua apresentação à seleção de poemas de Rodolfo Coelho Cavalcante (2000, p. 05), incluída no projeto denominado de Biblioteca do Cordel, da editora Hedra:

A literatura popular em verso passou por diversas fases de incompreensão e vicissitudes no passado. Ao contrário de outros países, como o México e a Argentina, onde esse tipo de produção literária é normalmente aceita e incluída nos estudos oficiais de literatura " por isso poemas como "La Cucaracha" são cantados no mundo inteiro e o herói do cordel argentino, Martin Fierro, se tornou símbolo da nacionalidade platina ", as vertentes brasileiras passaram por um longo período de desconhecimento e desprezo, devido a problemas históricos locais, como a introdução tardia da imprensa no Brasil (o último país das Américas a dispor de uma imprensa), e a excessiva imitação de modelos estrangeiros pela intelectualidade.

A "descoberta" do cordel pelo meio acadêmico, julgamos, decorre da percepção dos intelectuais acerca da força que essa modalidade literária detém na representação do imaginário de nosso povo, cristalizando sua maneira de pensar e de reagir ante os fenômenos sociais.

Dessa forma, trata-se o cordel de uma literatura viva, intimamente ligada com a cosmovisão popular, do que decorre sua condição de chave para o entendimento da própria identidade nacional: mais do que narrar histórias, os cordelistas deixam pistas para o mapeamento da "alma" de nosso povo, aqui entendida como a "entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida (do nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade) e ao pensamento" (Ferreira, 1986, p. 88).

De fato, a análise da estrutura profunda da literatura de cordel descortina para o pesquisador despido de preconceito uma maneira própria, peculiar, de dar equação aos problemas do mundo, que muitas vezes se traduz em uma reação, no nível ficcional, ao descaso ou opressão das autoridades para com os menos favorecidos.

Como em um labirinto, as "respostas" que esse tipo de literatura dá aos problemas do mundo seguem em ziguezague, não raro revelando as contradições da mente popular, pouco afeita ao refinamento intelectual da elaboração científica, mas que tem como maior trunfo a autenticidade e a espontaneidade perdidas pelo racionalismo rançoso das academias.

Como forma de pensar "alternativa", a literatura popular constrói seus heróis segundo uma lógica intimamente colada às vicissitudes do povo, muitas vezes legitimando uma condição ou um conjunto de práticas que, aos olhos dos que não vivenciaram as mesmas experiências do povo. Daí a transformação, por exemplo, de vilões em heróis.

Os feitos de João Grilo e de Pedro Malazarte são emblemáticos dessa questão, considerando que muitas de suas desonestidades e até mesmo de seus atos violentos são plenamente justificados no interior das obras de cunho marcadamente popular, que apóiam o proceder dos referidos (anti-)heróis a partir da opressão e da miséria experimentada por ambos, o que permitiria interpretar seus atos como o restabelecimento da justiça, um ato de desespero e/ou uma questão de sobrevivência.

É nesse contexto que se insere a questão de Lampião, o qual, circunscrito no rol do banditismo, muitas vezes parece ser facilmente abonado pelos cordelistas, que o promovem a condição de verdadeiro herói popular. Como entender essa reviravolta conceitual, principalmente distante dos centros em que o fenômeno do cangaço se originou? Como não se chocar diante da afirmação da crueldade de um bandido capaz de cometer atos de violência quase impensável à luz da razão?

A dificuldade em entender esse fenômeno muitas vezes terminou por impor uma explicação preconceituosa, atribuindo a uma pretensa propensão atávica do nordestino à violência, como afirma Albuquerque Jr. (1999, p.61), ao discutir os equívocos dos intelectuais do sul (e mesmo do norte) do país em suas interpretações do Nordeste:

O banditismo ou o cangaço é também outro tema que, eleito pelo "discurso do Norte" para atestar as conseqüências penosas das secas e da falta de investimentos do Estado na região, de sua não modemização, adquire uma conotação pejorativa que vai marcar o nortista ou o nordestino com o estigma da violência, da selvageria. Aliás, esse medo do nortista e, especialmente, do homem de cor negra emerge com a constante insubordinação dos escravos, importados do Norte para o Sul. Submetidos a um ritmo de trabalho mais intenso e relações sociais mais despersonalizadas, esses escravos tendem a se amotinar, notadamente num período em que a consciência do eminente fim da escravidão crescia até mesmo entre a massa escrava. A fama do "negro mau" vindo do Norte está presente nos discursos que abolicionistas ou antiabolicionistas fazem na Assembléia Provincial de São Paulo e marcam a imagem do "homem do Norte", desde o século anterior.

O cangaço só vem reforçar essa imagem do nortista como homem violento e do Norte como uma terra sem lei, submetido ao terror dos "bandidos e facínoras", além da violência de suas "oligarquias". A descrição das façanhas dos bandidos, colhida principalmente entre amedrontadas populações urbanas daquela área, possui quase sempre a mesma estrutura: descrevem o que "os facínoras fizeram ao saquear as diversas localidades, matando gente e animais, incendiando propriedades, desordenando famílias numa série inenarrável de crimes dos mais pavorosos e hediondos". As narrativas sobre o cangaço são um dos raros momentos em que o Norte tem espaço na imprensa do Sul, assim como quando ocorria repressão a movimentos messiânicos, secas ou lutas fratricidas entre parentelas. Estas narrativas servem para marcar a própria diferença em relação ao "Sul" e veicular um discurso "civilizatório", "moralizante", racionalista, em que se remetem as questões do social para o reino da natureza ou da moral. O "Norte" é o exemplo do que o "Sul" não deveria ser. É o modelo contra o qual se elabora "a imagem civilizada do Sul".

Esses equívocos, embora sejam injustificáveis, podem ser facilmente compreendidos admitindo-se que a realidade não é captada de forma única, tendo em vista que há entre nós e a realidade "filtros ideológicos". É isso que se pode depreender a partir da afirmação de Bosi (1993, p. 13) de que "o ato de ver apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência". Ou seja, o próprio olhar já é uma interpretação, posto que o olhar é como que programado a partir de nossas vivências com o mundo à nossa volta.

Portanto, para compreender o fenômeno do cangaço, e mais propriamente a conversão de bandidos como Lampião em heróis, requer do pesquisador um mergulho na alma, no imaginário do povo, dado serem as imagens que o compõem construções baseadas nas informações obtidas pelas experiências visuais anteriores. Nós produzimos imagens porque as informações envolvidas em nosso pensamento são sempre de natureza perceptiva. Imagens não são coisas concretas mas são criadas como parte do ato de pensar. Assim a imagem que temos de um objeto não é o próprio objeto, mas uma faceta do que nós sabemos sobre esse objeto externo. (Laplantine e Trindade, 1997, p. 10)

Mas, afinal, o que moveria o "povo do Nordeste" a ver o cangaceiro como herói, o que, em certa medida, imporia o apagamento, suspensão ou transferência a uma espécie de zona "neutra" do pensamento, na qual o julgamento ficaria adormecido ou fragilmente ativo, das notícias dos crimes hediondos praticados por esses fora-da-lei?

A análise das respostas de diferentes autores para a atribuição de um valor positivo à figura do cangaceiro permite-nos afirmar a presença de uma raiz de contestação, de negação ao que está estabelecido. O cangaço torna-se, assim, elemento de resistência, ainda que marcada pela ausência de reflexão mais profunda e refinada da parte dos que a ele aderem ou manifestam simpatia: nega-se a partir de um sentimento difuso de injustiça, de descaso, de falta de perspectivas, ou mesmo de indistinção, de incapacidade em reconhecer quem é verdadeiramente o mocinho ou o vilão em uma situação em que o terror e a opressão constituem os únicos meios de administração dos conflitos, seja da parte dos poderes legalmente constituídos, seja por parte dos que se põe à margem da lei.

Dessa forma, experiências visuais pretéritas foram as responsáveis pela mitificação de um Jesuíno Brilhante e de um Antônio Silvino, enquanto personagens como Lampião e Corisco, pelas atrocidades inenarráveis, ocupam posições ambíguas neste processo de construção coletivo.

É nesse contexto que a literatura de cordel se apresenta como um importante veículo de expressão e como um articulador da comunicação do sertão esquecido e inculto, como se observa nas entrelinhas da afirmação de Batista (1977, p. 17), para quem;

Se a memória popular vai conservando e transmitindo velhas narrativas e acontecimentos recentes esta transmissão está sempre marcada pelo espírito desta sociedade. E não é por outra razão que a memória popular vai conservando os fatos narrados, transmitidos com as adaptações de cada narrador aquilo que foi ouvido. E quando se trata de alfabetizado, a transmissão se torna ainda mais fácil, porque oriunda da própria leitura dos folhetos.

Essa função do cordel, a bem da verdade, já foi muito mais destacada, quando a sociedade inculta, carente de toda infra-estrutura básica, tinha nessa forma de literatura quase que o exclusivismo na tarefa de levar notícias para o povo, que se encarregava de disseminá-las em alpendres, durante as famosas retretas regionais em que se encontravam para conversas etc. Nessa época, o cangaço, por ser um assunto próximo, despertava o interesse dos espectadores, fazendo com que o caráter informacional dessa literatura tivesse sua efetivação.

A despeito disso, mesmo em tempos de televisão e Internet a literatura de cordel continua sendo porta-voz do falar e do pensar do povo, retratadas em suas marcas principais: o traço forte da oralidade, presente nas falas das personagens populares (sertanejos, brejeiros, etc.), e a ideologia presente nas formas como esses personagens atuam e sobrevivem no interior das narrativas.

Por todas essas razões é que o presente trabalho, que se configura em nossa Monografia de Especialização em Literatura Brasileira, curso realizado pelo Departamento de Letras Estrangeiras da Faculdade de Letras e Artes da Universidade do Estado do Rio Grande Norte, pretende afirmar o papel da literatura de cordel enquanto instrumento de expressão da contestação das classes populares. Para tanto, nos valemos da análise de dois cordéis: A Chegada de Lampião no Céu, de Rodolfo Coelho Cavalcante, e A Chegada de Lampião no Inferno, escrito por José Pacheco da Rocha.

A opção pelos referidos cordéis deveu-se, inicialmente, por gravitarem em torno da temática do Cangaço, tendo como foco a figura do Lampião. Dessa forma, abre-se o espaço para pensarmos um fenômeno característico do Nordeste, que embora pontuado no tempo, ainda reverbera enquanto elemento simbólico da cultura nordestina. Por outro lado, a contradição dos títulos dos cordéis escolhidos como objeto de investigação permite-nos tanto analisar as contradições e coerências do discurso que ora afirma, ora nega o estatuto do cangaceiro como herói popular, quanto demonstrar que, no nível da estrutura profunda, ambos os textos se equivalem, reafirmando o desejo popular de contestar a lógica do status quo.

Para desenvolvermos nossas argumentações, dois conceitos foram particularmente importantes: a noção de banditismo social, à qual Hosbsbawn recorre em sua obra Bandidos (1976) e a concepção da literatura de cordel enquanto revanche poética, trabalhado por Martine Kunz em seu Cordel: a voz do verso (2001).

Em termos metodológicos, nossa pesquisa se apóia em uma perspectiva comparativista, considerando o contínuo confronto entre os cordéis de Rodolfo Coelho e José Pacheco, bem como através do diálogo entre o discurso literário e o sociológico.

Para atingirmos nossos objetivos, o corpo do presente trabalho foi dividido em três capítulos. No primeiro, apresentamos uma panorâmica histórica acerca do cangaço, momento em que discorremos sobre fatos marcantes da vida de Virgulino Ferreira, o Lampião. No segundo capítulo, passamos a tratar da importância de questões inerentes à estrutura do cordel, ressaltando ainda sua importância como elemento importante no processo de construção do herói épico-popular. Por fim, desenvolvemos ao longo do terceiro capítulo a análise contrastiva entre os cordéis A Chegada de Lampião no Céu e A Chegada de Lampião no Inferno, demonstrando que Rodolfo Coelho e José Pacheco, embora se afastando em algum momento na abordagem sobre a figura do Lampião, aproximam-se no nível da estrutura profunda, traduzindo em suas obras tanto o desejo da população mais carente de contestar o descaso e/ou opressão das autoridades para com o povo, quanto de criar no nível da ficção uma saída para as dificuldades impostas pelas condições naturais quase sempre inóspitas e a falta de perspectivas da região.

II " PANORÂMICA HISTÓRICA DO CANGAÇO E A FIGURA DE LAMPIÃO.

2.1. Origem e instituição do cangaço.

Segundo o Dicionário do folclore brasileiro (s.d., p. 68), de Câmara Cascudo, "Cangaço é a reunião de objetos menores e confusos, utensílios das famílias humildes, mobília de pobre e de escravos". Cangaço, pois, é o conjunto de troços, tarecos, burundangas, cacarecos, cangaçada, cangaçaria.

Outra definição que Cascudo (Id., ibid.) dá para o termo cangaço é "conjunto de armas que costuma conduzir os valentões". É, portanto, o preparo, carrego, aviamento, parafernália do cangaceiro, inseparável e característica; armas, munições, bornais, bisaco com suprimentos, balas, alimentos secos, meizinhas tradicionais, uma muda de roupa, etc.

Tomar o cangaço, viver no cangaço, andar no cangaço, debaixo do cangaço, são expressões vinculadas com a vida de bandoleiro, assaltador, profissional, ladrão de mão armada, bandido, conforme registrou Cascudo (Id., p. 183):

Há quatro coisas no mundo

Que alegram um cabra macho;

Dinheiro e moça bonita,

Cavalo estradeiro baixo

Clavinote e cartucheira;

Pra quem anda no cangaço

O cangaço surgiu numa região pobre, o nordeste semi-árido, cuja principal característica do quadro natural é a existência de períodos secos, que desestruturam a economia local, onde a concentração de terras nas mãos de poucos ainda hoje se mantém rigidamente inflexível.

Não encontrando soluções para sobrevivência, ao homem nordestino restava a pouca espera, crescia a apatia de sentimentos ao observar a miséria à sua volta. Muitos levados ao desespero tendiam a enveredar pelos caminhos da violência para escapar da realidade em que o latifundiário - o patrão - lhe tirara todos o suor, restando apenas revolta e por motivos inconscientes tornando-se muitas vezes um cangaceiro.

O processo de formação do cangaço deita raízes profundas no contexto sócio-histórico. Por essa razão, a compreensão desse fenômeno exige uma análise de alguns aspectos históricos do Brasil colonial, no qual está a gênese desse fato sócio-cultural.

Como se sabe, o território brasileiro, principalmente durante o segundo ciclo econômico - a cana de açúcar -, foi ocupado por várias raças: branco, negro e índio. A terra foi dividida em lotes, recebendo o nome de Capitanias Hereditárias. Esse sistema não teve êxito total, embora algumas tenham prosperado, mas a maioria fracassou. Os donatários não tinham interesse e nem recurso para colonizarem seu quinhão. Doavam lotes de terras, conhecidos por sesmarias, a importantes famílias do reino ibérico, responsabilizando-se pela atual estrutura fundiária.

Nesse momento, já é patente a postura ambígua da Igreja, que tinha diferenciados discursos para cada classe social, gerando assim conflitos e ao mesmo tempo coesão de idéias sobre a posse da terra. Os ensinamentos da igreja não conseguiram, no entanto, abafar diversos movimentos no campo, principalmente quando do surgimento de beatos e líderes cangaceiros.

Influenciados por uma religiosidade primitiva, muitas vezes sincretizada, esses homens do povo, vestidos com a indumentária que os caracterizava, protagonizaram revoltas célebres, como Canudos.

Nesse momento histórico, já há também notícias da existência dos cangaceiros, que marcaram época no imaginário popular, misturando barbárie e heroísmo na mente do povo. Não se tratavam, porém, de bandos independentes, já que estavam a serviço de mandatários políticos locais, como informa Maria Isaura Pereira de Queiroz (1982, p. 27);

A existência de bandos independentes não é mencionada senão raramente nos relatos, nas memórias, na literatura, nos periódicos e nos demais documentos das diversas épocas anteriores ao século XX. As referências ao cangaço subordinado, ao contrário, são freqüentes e numerosas, mostrando que esta era a forma habitual dos bandos dos períodos colonial e imperial.

A organização dos bandos, portanto, mantém um processo sistêmico de total submissão à classe dominante. Sua materialização enquanto revolta se dará efetivamente a partir da desarticulação das forças produtivas, acirrada com as sucessivas catástrofes naturais.

Em 1876, o escritor Franklin Távora publica o romance O Cabeleira, que conta a história do precursor do cangaço. Pai e filho, de nomes Joaquim e José Gomes, juntamente com um comparsa negro, conhecido por Teodósio, formam um bando de cangaceiros, assombrando os sertões de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, com suas violências e maldades.

A época que este cangaceiro atuou coincidiu com o momento de grande calamidade pública, na forma de epidemia de varíola e de uma grande seca começada em 1777. O pavor que causara sobre a população ficou retratado em canções, que as pessoas cantavam como forma de intimidar as crianças:

Fecha a porta gente

Cabeleira aí vem

Matando mulheres,

Meninos também.

O cangaço se constituía como uma saída em um contexto de miséria profunda e atrocidades. Por isso, novos nomes iam fazendo crescer o fenômeno, dentre os quais o de Lucas da Feira. De raça negra, Lucas da Feira surgiu no sertão baiano, na metade do século XIX. Era salteador, assassino, raptor de várias donzelas, cujas façanhas foram retratadas na tradição oral dos feirenses.

Nesse período, outros grupos de cangaceiros foram formados. Entre esses novos grupos, se destaca o bando de João Calangro, que agiu no sertão cearense, como destaca Pereira de Queiroz (1982, p. 27).

Excelente exemplo foi o de João Calangro que na região do cariri (Ceará), durante a grande seca de 1877, organizou um bando e dominou àquela área. Em 1875, João Calangro era apenas um capanga do grupo de Inocêncio Vermelho, grupo aliciado e sustentado pelo Juiz Municipal do município de Jardim, chefe político local, com o objetivo de manter a ordem. O bando de Inocêncio Vermelho era, pois, um bando subordinado a um poderoso local. Assassinado Inocêncio em 1876, Calangro, que se gabava de ter cometido 32 assassinatos sem que qualquer processo fosse intentado contra ele, tornou-se seu sucessor. Com a seca de 1877 e as desordens regionais que ela ocasionava - os bandos de retirantes invadindo e saqueando povoados - , várias autoridades e chefes políticos reclamaram o concurso de Calangro contra os 'grupos de malfazejos', isto é, dos esfomeados, miseráveis que procuravam não morrer à míngua. O cariri, rico oásis, era particularmente visado pelos retirantes, diante dos quais fugiam os fazendeiros abastados e as autoridades.

Outro cangaceiro independente que granjeou notoriedade nessa época foi Jesuíno Brilhante, que se tornou conhecido como "O Cangaceiro romântico", pois seus biógrafos são unânimes em apontar sua retidão de caráter como característica marcante.

Natural de Patu, Estado do Rio Grande do Norte, o cangaceiro assinava-se Alves de Mello Calado; o "Brilhante" foi em homenagem a parentes cangaceiros do sul do Ceará. Seu ingresso no cangaço deveu-se a questões menores, motivadas pela inimizade entre sua família inimiga e a dos Limão, que era protegida por poderosas oligarquias paraibanas e potiguares.

Depois do cangaceiro Brilhante, um novo nome se associa ao cangaço: Antônio Silvino, cujo verdadeiro nome era Manuel Batista de Morais. Pernambucano, nascido na localidade de Afogados da Ingazeira, Antônio Silvino entrou no bando de Silvino Aires para vingar-se do assassino do seu pai, crime este cometido por inimigos políticos. O nome Silvino foi uma forma de homenagear o antigo chefe. Após a morte de Silvino Aires, assumiu a liderança do grupo. Tanto no sertão como no agreste e até bem próximo do litoral, assaltava fazendas, roubava, assassinava adversários políticos, chantageava comerciantes ricos, poupava as mulheres de agressões físicas e sexuais, tinha fama de bom ladrão, tornando-se um mito.

O reinado de Antônio Silvino foi de 1896 a 1914, terminando com a sua prisão em Taquaretinga, Estado de Pernambuco. Após cumprir pena, faleceu de morte natural na cidade de Campina Grande, Estado da Paraíba, no ano de 1944.

Após o reinado de Antônio Silvino, desponta o de Sebastião Pereira e Silva, o comandante "Sinhô" Pereira. Natural de Serra Talhada, Estado de Pernambuco, e descendente do Barão do Pajeú, seu período de atuação foi de 1916 a 1922. Tornou-se cangaceiro devido a questão de família, eliminando diversos membros dos Carvalhos, adversários do seu clã.

A pedido do padre Cícero, fugiu para Goiás. E, cansado das guerrilhas, abandona o cangaço, entregando sua tropa a Virgulino Ferreira, o "Lampião".

Morreu na década de 1970 na cidade de Patos de Minas, Estado de Minas Gerais.

2.2. A figura de Lampião, o "rei do cangaço".

Lampião tornou-se a figura mais conhecida do fenômeno do cangaço, em parte devido as suas proezas contra a polícia e poderosos locais, a despeito de ter seguidamente estabelecido diversas alianças com esses. Tornaram-se míticas as estratégias que seu bando utilizou durante o período de duração do seu domínio no sertão.

De cabra de "Sinhô" Pereira a chefe de bando, Lampião ficou conhecido como "o rei do cangaço", título alcançado devido as suas atrocidades. Através de métodos desumanos dominou o semi-árido de seis estados nordestinos: Alagoas, Sergipe, Bahia, Paraíba, Ceará e, em uma oportunidade, esteve no Rio Grande do Norte, desafiando volantes policiais, infligindo-lhes vergonhosas derrotas. Entre as suas façanhas encontra-se o roubo da Baronesa de Água Branca, o ataque a Sousa e a tentativa de saquear Mossoró.

Batizado com o nome de Virgulino Ferreira da Silva, nasceu a sete de julho de 1897, em Vila Bela, (hoje Serra Talhada), Estado de Pernambuco, falecendo em 1938, juntamente com sua companheira Maria Bonita e os membros de seu bando, em Angicos, Sergipe, assassinado por policiais de Alagoas. O apelido de Lampião veio de uma expressão que costumava repetir, gabando-se de que, ao lutar contra seus inimigos, sua espingarda não deixava de ter clarão "tal qual um lampião".

Seu ingresso no cangaço ocorreu quando tinha apenas 17 anos, tomando parte no bando de Sinhô Pereira. O motivo de sua entrada no banditismo é controverso: para alguns, deveu-se ao desejo de vingar o pai, assassinado por chefes políticos que desejavam as terras da família; para outros, Lampião já era membro de tropas de cangaceiros quando seu pai foi assassinado. Enquadra-se no primeiro grupo Hobsbawn (1976, p. 56), que assim descreve o processo que levou Lampião ao cangaço:

Quando ele [Lampião] tinha 17 anos, os Nogueiras expulsaram os Ferreiras da fazenda onde viviam, acusando-os falsamente de roubo. Assim começou a rixa que o levaria à marginalidade "Virgulino", recomendou alguém, "confie no divino juiz", mas ele respondeu: "O Bom Livro [A Bíblia] manda honrar pai e mãe, e se eu não defendesse nosso nome, perderia minha macheza". Por isso,

Comprou um rifle e punhal Na vila de São Francisco; e formou um bando com seus irmãos e 37 outros combatentes (conhecidos pelo poeta e por seus vizinhos pelos apelidos, muitas vezes dados tradicionalmente aos que iam para o cangaço) para atacar os Nogueiras, na Serra Verme­lha. Passar da rixa de sangue ao banditismo era um passo lógico (e necessário, dada a maior força dos Nogueiras). Lampião tornou-se um bandido errante, ainda mais famoso que Antônio Silvino, cuja captura em 1914 deixara uma lacuna no panteão do sertão:

Porém, não poupava a pele de militar nem civil;

Seu carinho era o punhal

E o presente era o fuzil

Deixou ricos na esmola

Valente caiu de sola

Outro fugiu do Brasil

A vida de fora-da-lei de Lampião começou em razão de roubos de artefatos da pecuária. Sucederam agravos, perseguições a toda sua família, levando-o assim a abraçar o cangaço. Como todo cangaceiro, seu lema era vingança. No princípio começou com tiroteio, emboscada, cerco, resultando mais tarde em mortes e outros feitos.

Logo após a sua ascensão a chefe de bando, Lampião decidiu atacar a cidade de Água Branca, Estado de Alagoas, visando roubar D. Joana Siqueira Torres. Sendo bem sucedido em sua empreitada, logo granjeou notoriedade regional.

Em 1924 uniu-se ao bando de Chico Pereira, natural da cidade de Nazarezinho, Estado da Paraíba, desferindo ousado ataque à cidade de Sousa, sem resistência e nenhum estado de alerta, o município foi palco para mais um capítulo da história de terror do cangaço nordestino.

Implantando o terror por onde passou, Lampião assaltou cidades, incendiou fazendas, assassinou pessoas, desonrou moças. Hobsbawn (Op.cit, p. 57-58), descreve alguns de seus feitos terríveis:

[A história de Lampião] registra horrores: como Lampião assassinou um prisioneiro, embora sua mulher o tivesse resgatado, como ele massacrava trabalhadores, como torturou uma velha que o amaldiçoara (sem saber de quem se tratava) fazendo-a dançar com um pé de mandacaru até morrer, como matou sadicamente um de seus homens, que o ofendera, obrigando-o a comer um litro de sal, e incidentes semelhantes. Causar terror e ser impiedoso é um atributo mais importante para esse bandido do que ser amigo dos pobres.

Já em 1926, Lampião torna-se um nome lendário no Nordeste quando recebeu a patente de Capitão do Exército Brasileiro, armas e munições para combater a Coluna Prestes, concedidos pelo Padre Cícero Romão Batista. Essa patente, não sendo reconhecida pelo Governo Brasileiro, fê-lo continuar com a vida cangaceira.

A Grande Enciclopédia Larousse Cultural (1994, p. 3548) descreve assim o episódio do encontro com a Coluna Prestes;

Com Lampião vigorou a lei do extermínio, indo do estupro ao incêndio, do saque ao assassinato frio. Na época da Coluna Prestes, Lampião foi convidado a colaborar com o governo por intermédio do Padre Cícero, que lhe ofereceu a patente de capitão. Aproveitou-se do momento para armar melhor todo o seu bando".

No ano seguinte, 1927, agindo por incentivo de Massilon Leite, resolveu atacar Mossoró, naquela época considerada uma das cidades ricas do Nordeste. Dessa vez, porém, o bando de cangaceiros foi derrotado, batendo em retirada 1.

O prefeito Rodolfo Fernandes e alguns moradores, recebendo informações que o bando cortara a fronteira com a Paraíba e estava marchando para o Rio Grande do Norte, tomaram providências, preparando homens munidos com armas e munição à espera de Lampião e seu bando. Assim, no dia 13 de junho os homens estavam esperando os cangaceiros em pontos estratégicos como as torres das igrejas, casa do prefeito, mercado, cadeia e muitos outros pontos.

Próximo a Mossoró, Lampião se abrigou na fazenda oiticica na companhia do bando, encontrando o Coronel Antônio Gurgel, a quem obrigou a redigir bilhete ao prefeito de Mossoró, que se indispôs a pagar a quantia de 400 contos de Réis estipulada por Lampião, para que a cidade fosse poupada de um ataque fulminante. Indignado, o cangaceiro ataca a cidade, sendo rechaçado pela população armada.

Em 1930, Lampião conheceu Maria Bonita, que abandonou o marido para acompanhar o cangaceiro. À mulher é creditada uma forma de obstáculo ao instinto assassino do novo esposo.

1. O episódio é descrito com riqueza de detalhes por Raul Fernandes em A Marcha de Lampião " Assalto a Mossoro (1985), fonte da qual retiramos os dados que apresentamos relativos ao rechaço sofrido pelo bando de cangaceiros na cidade potiguar.

Mantendo-se errante, sem endereço fixo, vivendo de assaltos, saques, e não se ligando permanentemente a nenhum chefe político ou de família, o bando de lampião instaurou o clima de terror pelos sertões até o ano de 1938, quando, a 28 de julho, a carreira do "rei do cangaço" chegou ao final: surpreendido na grota de Angicos, entre Alagoas e Sergipe, pela volante de João Bezerra, da polícia de Alagoas, o cangaceiro é fuzilado na companhia de Maria Bonita e nove bandoleiros. Os policiais decapitaram os bandidos, como prova do extermínio do bando, e as cabeças ficaram expostas no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, por mais de 30 anos.

Depois do desaparecimento de Lampião, Cristino Gomes da Silva Cleto, conhecido como "Corisco, o Diabo Louro", assumiu o controle do banditismo. Sua carreira, entretanto, foi curta, sendo morto em 5 de maio de 1940, quando foi surpreendido pelas volantes policiais, na companhia de Dadá, sua esposa, na região de Brotas de Macaúbas, Estado da Bahia.

Com as mortes de Lampião e Corisco, o cangaço se acabou na forma como ele era entendido, não obstante sabermos que hoje ainda continua presente, disfarçado e com outra nomenclatura mais sofisticada.

De acordo com Frederico Pernambucano de Mello (1976, p. 16), "Lampião se enquadra no tipo de maior freqüência como modalidade criminal dentro do quadro geral do cangaço nordestino", ou seja, o cangaço rapina ou meio de vida. Portanto, numa época profundamente conturbada pelas disputas entre os chefes políticos, lutas de família, ausência de manifestações rígidas de um poder público distante, povoado por um homem individualista que não prestava conta dos seus atos, e influenciado pelas bravuras dos cavaleiros medievais, o sertanejo, que tinha no épico o seu gênero preferido, passa a conceber o cangaço como um meio de sobrevivência, na qual a tônica é o sentimento de vingança e refúgio (Id., ibid.). Dessa forma, o fato do sertanejo considerar o cangaço como profissão reflete todo o contexto em que se insere as condições sócio-econômicas, políticas e culturais da região, marcado pela complexidade do fenômeno.

Tudo isso faz com que, como veremos a seguir, mesmo diante de tantas atrocidades, o mito do cangaço se espalhou pela caatinga, convertendo em herói os personagens que optaram como regra de conduta a marginalidade e o banditismo. E nesse processo, as diferentes manifestações artísticas tiveram um papel relevante, fazendo da figura do cangaceiro uma temática freqüente, principalmente as de caráter acentuadamente popular, dentre as quais se destaca a literatura de cordel.

III " A LITERATURA DE CORDEL E O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO HERÓI POPULAR

3.1. O cangaço como temática artística.

Embora, como vimos no capítulo anterior, o cangaço tenha se desenvolvido alimentando-se do terror, única arma à qual recorriam para dobrar os inimigos, a população mais pobre sempre se revelou dividida entre dois extremos: a concepção que via o cangaceiro como um ser marginal, sanguinário e violento, e portanto um inimigo a ser temido, e a percepção dos bandoleiros como uma espécie de justiceiro, de símbolo da resistência aos coronéis, chefes políticos locais, igualmente violentos e facínoras. Nessa última concepção, a figura do cangaceiro avulta como uma espécie de herói, que dá ao opressor, e aos que se colocam a serviço deste, a paga ao pouco caso para com o sofrimento do pobre.

Esse contínuo equilíbrio entre uma concepção e outra levava os menos favorecidos a servirem aos dois senhores, policiais e cangaceiros, com o único propósito de sobreviverem naquele clima de terror. Como resultado disso, o "coiteiro" de hoje, assim chamado o indivíduo que fornecia proteção aos cangaceiros, poderia ser o informante das volantes de amanha ou mesmo um "cachimbo", como era chamado a pessoa que perseguia cangaceiros por vingança e não tinham vínculo com o governo.

Uma explicação para esse movimento contraditório, que ora afirma o cangaceiro como bandido, ora o vê como uma espécie de herói popular, é dada por Hobsbawn (1976). Para o renomado autor, a ambigüidade no tratamento do cangaceiro decorre do fato do mesmo não se constituir em um criminoso comum, mas sim naquilo que a sociologia define como bandido social, que Hobsbawn assim define:

O ponto básico a respeito dos bandidos sociais é que são proscritos rurais, encarados como criminosos pelo senhor e pelo Estado, mas que continuam a fazer parte da sociedade camponesa, e são considerados por sua gente como heróis, como campeões, vingadores, paladinos da Justiça, talvez até mesmo como líderes da libertação e, sempre, como homens a serem admirados, ajudados e apoiados. ( p. 11)

Para o autor, o bandido social não deve ser visto indistintamente, posto haver diferenças muito grandes entre eles. Por isso, Hobsbawn propõe a classificação desses bandidos em três categorias: a) o ladrão nobre, ou Robin Hood; b) os haiduks, assim denominados os combatentes primitivos pela resistência; e c) o vingador, que semeia o terror, compreendendo, dentre outros tipos de bandidos, os cangaceiros nordestinos.

A partir dessa distinção é que Hobsbawn irá analisar a figura ambígua de Lampião, misto de herói popular e fora-da-lei:

Lampião foi e ainda é um herói para sua gente, mas um herói ambíguo. Talvez o cuidado normal explique por que o poeta [popular] faz sua mesura à moralidade formal e registra a "alegria do Norte" ante a morte do famigerado bandido (De forma alguma todas as baladas seguem esta linha). A reação de um sertanejo de Mosquito talvez seja mais típica. Quando os soldados chegaram com as cabeças de suas vítimas em latas de querosene, de forma a convencer todos de que Lampião estava realmente morto, ele disse: "Mata­ram o Capitão, porque a reza forte nada adianta na água". Explica-se a observação: o último refúgio de Lampião fora o leito seco de um ribeirão, e de que outra forma, senão pelo fracasso da magia, podia-se explicar sua derrota? Não obstante, apesar de herói, Lampião não era um herói bom.

É verdade que ele fizera uma romaria ao famoso Messias de Juazeiro, o Padre Cícero, pedindo sua bênção antes de abraçar o cangaço, e é também verdade que o santo, embora debalde o exortasse a renunciar à vida marginal, dera-lhe um documento em que o nomeava capitão, e tenentes a seus dois irmãos. Contudo, a balada de onde extrai a maior parte desse relato não menciona qualquer desagravo de ofensas (exceto no seio do próprio bando), nenhum ato de tirar dos ricos para dar aos pobres, nenhuma dispensação de justiça. Registra batalhas, ferimentos, ataques a cidades (ou contra o que passava por cidades no sertão brasileiro), seqüestros, assaltos a ricos, combates com os soldados, aventuras com mulheres, episódios de fome e de sede, mas nada que lembre os Robin Hoods. Pelo contrário, registra "horrores". (1976, p. 57). [Grifo do autor].

A despeito de todas esses crimes que Hobsbawn destaca, e mesmo de outras tantas atrocidades atribuídas a Lampião, o cangaço há muito vem atraindo os artistas, que terminaram contribuindo para a afirmação do mito do cangaceiro.

De fato, as diferentes manifestações artísticas se apropriaram e reforçaram o mito do cangaceiro, inclusive expressando algumas vezes uma visão romantizada do herói-bandido. É exemplo disso o filme que o libanês Benjamin Abraão Botto realizou sobre o cangaço, seguindo-se e ele diversas outras películas, incluindo entre estes O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, premiado em Cannes como "melhor filme de aventuras" e apontado como revolucionário.

Outra leitura do cangaço que merece destaque é a minissérie Lampião e Maria Bonita, produzida pela Rede Globo nos anos 80, com altos índices de audiência, e que trazia nos papéis principais os atores Nélson Xavier (Lampião) e Tânia Alves (Maria Bonita).

Também no âmbito da música se podem citar exemplos da exploração do mito do cangaço. A minissérie televisiva citada, a propósito, trazia como música tema a canção Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor, da autoria de Octacilio Batista e Zé Ramalho, interpretada por Amelinha, e que, em certo trecho, descreve a bravura e o encanto de Maria Bonita que, segundo a letra da música, trazia cativo o valente Lampião. Ademais, pérolas do cancioneiro popular, como a célebre Mulher rendeira, são atribuídas ao chefe bandoleiro, que também nunca perdeu o contato com suas aptidões musicais.

É na literatura, entretanto, que estão os maiores exemplos da apropriação do universo e da temática do cangaço, conforme se observa pelas obras já citadas em capítulos anteriores.

Uma possível resposta pode ser entrevista em obras de vários autores consagrados pelo cânone literário das academias, notadamente aqueles pertencentes à vertente regionalista nordestina.

Assim, um primeiro exemplo, além do já citado O Cabeleira (s./d.), de Franklin Távora, pode ser observado no romance Vidas Secas (2000), escrito por Graciliano Ramos, no qual o narrador descreve a revolta contra as injustiças das autoridades, representada pela violência do soldado amarelo, induz o personagem Fabiano a considerar a possibilidade de entrar para o cangaço, ao que corresponde uma associação da figura do cangaceiro como uma espécie de justiceiro social.

Outra é o motivo que leva Volta-Seca, um dos meninos de rua enfocados em Capitães de Areia (1996), clássico de Jorge Amado, a ingressar no bando de Lampião, embora haja sempre a possibilidade de identificar esse motivo com a falta de perspectivas característica dos miseráveis: o gosto de aventuras e a atração pelo poder.

Em Os Sertões (2000), obra de Euclides da Cunha, escritor pré-modernista, o sertanejo é descrito como um forte, mas também como um ser teimoso, que mesmo prevendo um futuro trágico tende a se deixar levar pelos caminhos do cangaço. Na obra, o autor destaca como uma das causas desse fenômeno a compreensão do sertanejo da vingança como um dever sagrado, ao que se soma a miséria advinda dos flagelos locais, acrescida ainda mais com a falta de justiça: a polícia era de um partido político, era do governador, de quem mandava; se alguém fosse seu correligionário teria poderes para muitas coisas, inclusive de silenciar a justiça. Daí resultara a percepção dos cangaceiros como pessoas prontas para resistir e para combater a polícia partidária.

No que diz respeito à literatura modernista, convém destacar que para os escritores da Semana de 22, o cangaceiro é acentuado como uma expressão da verdadeira brasilidade, retratando a verdadeira essência do homem sertanejo que se vale das armas para tentar pôr fim às suas agruras.

A exploração da figura do cangaceiro pela literatura de ficção acadêmica, entretanto, nem de longe pode ser comparada com o que ocorreu no âmbito da literatura de cordel, da qual sempre havia quem utilizasse seu talento artístico para dar destaque ao lado poético, sensível e "bondoso" do cangaceiro, principalmente de Lampião. A freqüência com que a figura do Lampião foi (e continua sendo) abordada pelo cordel, inclusive, fundou um ciclo autônomo do cangaço no meio cordelista.

3.2. O cordel como gênero épico: a constituição do herói popular

O grande número de títulos de cordel referentes a Lampião não deixam margem de dúvida em relação ao verdadeiro fascínio que os feitos, verdadeiros ou fictícios, do "rei do cangaço" exercem sobre os cordelistas e, por conseguinte, para os leitores do cordel. Entre esses muitos títulos, citamos alguns exemplos. Visita de Lampião a Juazeiro (de José Bernardo da Silva), O Grande debate que Lampião teve com São Pedro (de José Pacheco da Rocha), Lampião e Maria Bonita no Paraíso do Éden, tentados por Satanás (de João de Barros), Lampião na Bahia (de José Bernardo da Silva), João Peitudo, o filho de Lampião e Maria Bonita (de José Soares), ABC de Lampião, Maria Bonita e seus cangaceiros (de Rodolfo Coelho), Conselhos do Padre Cícero a Lampião (de Francisco das Chagas Batista), etc.

Considerando que a maioria dessas obras de cordel, ainda quando se propõem a descrever os atos violentos de Lampião, terminam contribuindo para a afirmação de valores identificados com a figura do herói, tais como bravura, destemor e uma certa expressão da coletividade " o que permite a Hobsbawn identifica-lo como um bandido social -, abre-se a possibilidade de pensarmos a literatura e cordel em termos comparativos com obras clássicas do gênero épico, no qual é patente o anseio do narrador em afirmar as virtudes de um herói. E para que melhor possamos demonstrar qualquer aproximação com o gênero épico, apresentamos uma análise histórica que aponte as raízes de sua formação 2.

A história que enredou o surgimento do gênero épico ocorreu em diferença cronológica de milênios com o legado homérico. O rapto da rainha Helena, de Esparta, por Páris, um nobre Troiano, registrado na Ilíada, motivou a coesão das cidades-estado gregas em torno de uma causa comum: Atenas, governada pelo soberano Agamnenon, Esparta, pelo rei Menelau e a ilha de Ítaca, território do herói Ulisses, lutaram com estoicismo durante dez anos na península da Ásia Menor, onde ficava o célebre reino de Príamo, a invencível fortaleza troiana, com seus muros intransponíveis. Batalhas foram travadas sem que houvesse definição de vitória, quando Ulisses teve a idéia de construir um grande cavalo de pau, escondendo os seus homens dentro da obra de arte.
Fingindo cansaço, mensageiro destacado no plano do herói grego conversa com os troianos e afirma que os companheiros já tinham voltado para a terra natal e que haviam deixado aquele presente aos vitoriosos. O rei Príamo ainda é alertado por seu vidente, mas os deuses já haviam decretado o destino da guerra.

O imenso cavalo de pau foi levado para dentro da inexpugnável cidadela e quando todos os troianos dormiam os gregos colocaram o plano em andamento, abrindo os portões para que os outros, escondidos em posições estratégicas, pudessem vencer os inimigos.

No retorno, descrito ao longo de outra obra homérica, a Odisséia, Ulisses desafia Poseidon, senhor dos mares profundos, que o amaldiçoa com uma condenação categórica, deixando-o sem rumo, com a sua tripulação, no mar mediterrâneo.

2. A palavra gênero é aqui empregada nos termos em que Soares (1993) a concebe, ou seja, com o sentido de agrupamento de obras literárias a partir de semelhanças formais, temáticas, estilísticas, etc. Nessa perspectiva, a obra literária se filiaria em um dos três gêneros fundamentais: a) o lírico, marcada pelo desejo do narrador de expressar suas próprias emoções; b) o dramático, voltada para a representação teatral; e c) o épico, no qual o narrador descreve as aventuras do herói, muitas vezes representando todos os valores de uma nação.

Quinze anos longe do seu reino, ao voltar o soberano de Ítaca encontra sua esposa assediada pelos guerreiros que conseguiram retornar, reivindicando o trono que lhe pertencia. Disfarçado de mendigo, ele se apresenta em momento certo, elimina os inimigos e novamente reina em seu lugar.

Cria-se, então, a figura lendária do herói popular, cuja inteligência e argúcia estimulam significativamente o imaginário na Grécia escravista, marcando com bastante ênfase a vida social e a produção cultural, visto que;

O imaginário não é a negação total do real, mas apóia-se no real para transfigurá-lo e deslocá-lo, criando novas relações no aparente real. A negação do real, na qual está contida a concepção de loucura e ilusão não tem nada a ver com o conceito de imaginário, pois encontram-se no imaginário, mesmo através da transfiguração do real, componentes que possibilitam aos homens a identificação e a percepção do universo real. (Laplatine e Trindade, 1997, p. 28).

Essa marca indelével no imaginário grego serviu de condicionante ao modo de produção escravista que necessitava de artifícios a fim de manter coesas as relações sociais de produção, evitando, dessa forma, migrações penalizantes à estrutura do status quo, motivo pelo qual todas as explicações estavam na vontade divina.

Sem dúvida, um dos maiores legado grego para a literatura universal foi o gênero épico, visto que precisavam construir a figura do herói invencível, com influência marcante no imaginário popular, arquétipo e símbolo nacional com quem o povo teria identificação, remontando, provavelmente ao domínio da civilização Micênica, época em que o homem conseguiu evoluir e trabalhar com o bronze.

Os dois clássicos supostamente escritos pelo poeta Homero que chegaram aos dias atuais, se constituem na expressão maior do gênero épico, influenciando a construção do herói individual ou no herói enquanto culto da pátria em obras posteriores, como Virgílio (Eneida), Dante (Divina Comédia - ( 1998) ), Luiz Vaz de Camões (Os Lusíadas " (s./d.) ) e Basílio da Gama (O Uraguai " (1998) ). Todos esses autores se inspiraram no enigmático introdutor do gênero épico, conforme afirmação de Nunes (apud Homero, 1974, p. 3-24).

Uma característica marcante desse gênero é que a narrativa "é feita em versos, que ressalta as excelentes qualidades de um herói, protagonista de fatos históricos ou maravilhosos" (Campedelli e Souza, 1999, p. 31). Ademais, nos textos épicos se sobressai a junção de temas relativos ao nacionalismo com o caráter maravilhoso das coisas e fatos, com o sobrenatural assumindo dimensões fantásticas através da interferência divina nas aventuras heróicas, ajudando ou atrapalhando os protagonistas.

Outra marca do gênero literário tem a ver com o fato de se constituir em "uma poesia objetiva, impessoal" (De Nicola, 1999, p. 54), concentrada no passado e com conotações nostálgica em que o narrador faz uso geralmente de verbos no pretérito.

A epopéia, cuja etimologia significa, em grego, "faço versos" (épos, "verso" + poieô, "faço"), exatamente porque a narrativa tem essa forma, foca sua temática sobre os interesses de um povo que, movido pela incerteza e a falta de perspectivas em múltiplos setores, se coadunam com a necessidade de se criar o mito, o herói no imaginário popular. Por essa razão, contextos sócio-culturais diversos abarcam com menor ou maior intensidade a proposta do defensor eleito, mais em sociedades cujas forças produtivas se encontram no mesmo patamar que a intransigência das relações sociais de produção em acenar com mudanças do que nas sociedades cujo grau de desenvolvimento é mais acentuado.

É nessa perspectiva que afirmamos a proximidade do cordel com as grandes epopéias, visto que também na literatura popular nordestina os autores voltam-se para a construção do herói, construindo sua obra a partir de elementos do imaginário popular.

Convém destacar, a esse propósito, que desde as primeiras décadas que se seguiram à colonização do Brasil, o Nordeste, constituído como centro de interesses dos portugueses, tomou contato com a tradição épica européia, resultando na criação de canções, poesias e composições em prosa que procuravam imitar, seguir as diretrizes gerais e composição dessas obras trazidas com o colonizador.

É desse contato e da necessidade de adaptação do conteúdo ao contexto local pelos poetas populares, quase sempre autodidatas e de baixa escolaridade, que os folhetos de cordel apareceram no século XVI, conforme Daus (1982, p. 11). As novas obras, assim, serviam para (re)contar histórias antigas que hoje podemos destacar na literatura contemporânea. Em suma: o que vinha de Portugal era assimilado e recontextualizado, o que explica o fato de ainda nos dias atuais encontramos na literatura de cordel reminiscências da guerra de Tróia, Carlos Magno, Cavaleiro Roldão e tantos outros.

Essa permanência da épica européia é destacada por Kunz (2001, p. 73-85), que reflete sobre a presença de elementos da saga carolíngia no cordel, transmitidos através das gerações pela oralidade:

A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, A Prisão de Oliveiros, O cavaleiro Roldão, A Morte dos Doze Pares de França. os títulos de folhetos evocam a presença do ciclo carolíngio da canção de gesta francesa na literatura de cordel.

Mais de 1200 anos após a Batalha de Roncesvales, travada na Espanha em 5 de agosto de 778, os Pares de França permanecem como modelos de valentia nos versos da literatura de cordel. Que sejam puras ficções ou que sua existência hesite entre história e lenda, Roldão e Oliveiros resistem. O sobrinho do Imperador Carlos Magno e seu fiel companheiro Oliveiros cavalgam, intrépidos e imortais, as sextilhas heptassílabas de Leandro Gomes de Barros, Antônio Eugênio da Si1va, Marcos Sampaio e outros emblemas de coragem e altivez, valores em apreço no meio do povo sertanejo.

A popularidade dos heróis é ainda motivo de inspiração em outras manifestações da cultura tradicional brasileira. Luís da Câmara Cascudo (1984) aponta vários exemplos da expansão e contaminação do tema.

Assim, todos as grandes obras européias chegaram até nós, se inserindo no processo de construção do imaginário popular e oferecendo aos cordelistas os grandes arquétipos da épica. Ademais, com a ida de nossos poetas à colônia, nossa poesia popular foi também "contaminada" por um fluxo de amorosidade, o que resultou em uma transformação da épica popular, desviando-a um pouco de termos morais e heróicos.

Aos poucos, os cordéis passaram a incorporar a discussão dos fatos locais, embora tenha permanecido uma certa tendência à grandiosidade e ao tom solene por parte dos cordelistas, herança ainda dos épicos europeus. Nesse processo de incorporação da matéria local, a literatura de cordel revela sua condição de importante articulador da comunicação do sertão esquecido e inculto, pois, como afirma Batista (1977, p. 17)

Se a memória popular vai conservando e transmitindo velhas narrativas e acontecimentos recentes esta transmissão está sempre marcada pelo espírito desta sociedade. E não é por outra razão que a memória popular vai conservando os fatos narrados, transmitidos com as adaptações de cada narrador aquilo que foi ouvido. E quando se trata de alfabetizado, a transmissão se torna ainda mais fácil, porque oriunda da própria leitura dos folhetos.

Essa função da literatura de cordel pode ser facilmente observada na produção de Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista, enfatizando a tarefa de aglutinar idéias e fatos, se transfigurando em importante fonte de informações, haja vista que na literatura popular encontramos traduzido o próprio espírito da sociedade. Daí por que muitas velhas narrativas, tradicionalmente transmitidas, vão se enriquecendo de comentários favoráveis, ou desfavoráveis, conforme o caráter do personagem ou personagens, é visto pela sociedade local. Há como que uma incorporação da figura-herói ou bandido, vítima ou criminoso - aos próprios valores de julgamento do meio social. (Idem, ibid.).

A condição da literatura de cordel de ser reflexão de valores culturais, que alimentam a imaginação popular, através de fatos políticos, econômicos, sociais, religiosos, etc. faz com que numa sociedade inculta, carente de toda infra-estrutura básica, o cordel desempenhe um papel de extrema relevância, principalmente por levar notícias para o povo, que se encarregava de disseminá-las em alpendres, durante as famosas retretas regionais em que se encontravam para conversas etc.. O cangaço, por ser um assunto próximo, despertava o interesse dos espectadores, fazendo com que o caráter informacional dessa literatura tivesse sua efetivação.

A concepção da literatura de cordel como porta-voz do povo, é a tônica que predomina na leitura que Kunz (2001, p. 60-61) efetiva dos folhetos populares, destacando nesse tipo de literatura o que ela denomina de revanche poética:

A virtuosidade e o talento dos poetas populares do Nordeste brasileiro eclodiram e persistem nessa região cuja cronologia é a das secas e das inundações, das grandes fomes históricas, ou das fomes mudas, cotidianas e crônicas, onde o analfabetismo e o subdesenvolvimento econômico sustentam-se um ao outro , onde a fome de pão muda-se em fome de vida e a espontaneidade poética parece nascer da dificuldade de sobreviver.

Por ser não só o testemunho mas também o representante dessa realidade dolorosa, o poeta popular não saberia retratá-la sem que o quadro fosse ao mesmo tempo requisitório (...).O poeta é a voz do silêncio.

Porém o requisitório não deixa de ser fragmentário, a crítica pontilhista nunca se torna global, o fato é analisado fora do sistema que o gera, o acontecimento social é raramente encarado como acontecimento político. Não se trata aqui de pensar na ideologia, explícita ou não, veiculada por essa produção literária. Parece-nos impossível conceber a literatura de cordel como um todo monolítico e catalogá-la como conservadora, alienada ou revolucionária. Multifacetada, é sua diversidade que seduz, muito mais que sua elaboração em sistema coerente e homogêneo. No entanto, é verdade dizer que, entre silêncios e protestos, raramente surge uma vontade de mudança: os conflitos são neutralizados, o governo não é considerado como acidente histórico mas como poder de direito divino. A contestação da ordem terrestre abalaria a ordem celeste... O receio de cair na desordem e na subversão desvia o discurso de sua função libertadora. Mas, ainda que exprima de modo espontâneo uma crítica social sem palavras de ordem que coalizem, o poeta oferece ao seu público, através de seus versos, uma forma de revanche poética.

Pelo que se deduz das palavras da autora, há um componente reivindicatório, ainda que difuso e nem sempre coerente, que perpassa toda a literatura de cordel. Esse vetor de luta, que segue enviesado, em ziguezague, faz da literatura de cordel um instrumento de afirmação dos valores do povo, os quais são encarnados nas protagonistas das histórias criadas no espírito inventivo dos autores.

Exemplificando essa questão, Kunz faz referência à figura do boi fujão, bastante freqüente nos cordéis. Para a autora, o fato do boi quase sempre ser destacado como um ser indomável, que vence a astúcia do vaqueiro e não se deixa domesticar, repõe no nível ficcional o desejo do povo em libertar-se, ao mesmo tempo em que contesta a ordem do mundo, no qual os menos favorecidos são espoliados:

O mistério de suas [do boi] aparições imprevisíveis e desaparições inexplicáveis, a impossibilidade de captura-lo e domá-lo, fazem obstáculo à harmonia do mundo, desregram a realidade. (...).

[Assim,] O animal fabuloso torna-se o símbolo da resistência insurrecional, [pois] a ficção é o lugar da desobediência à História. (...).

A insubordinação [do boi] pode ser lida como sinal de alguma falha no poderio político e econômico do fazendeiro, o animal tem o couro marcado mas leva com ele a força e o mistério de seu reino. A busca do boi encantado, rebelde e solitário, enaltece o vaqueiro, sua coragem e tenacidade. É a busca do ideal difícil de atingir. O animal acossado tem a forma de uma idéia, encarna a liberdade e abre o caminho da resistência, o boi propõe ao homem sertanejo uma decifração do universo que o informe sobre seu lugar e sua função no mundo.

Nessa perspectiva, a de leitura do cordel como revanche poética, mesmo a morte adquire uma função libertadora. (Op. cit., p. 64-66).

Nessa identificação da protagonista, no caso o boi, com o povo, leitor dos folhetos, que reforça a idéia do componente épico do cordel. Da mesma forma, a intenção de tratar das grandes questões que aflige o povo, ainda quando tratando de casos banais ou jocosos, com o fim de dar equação aos problemas observados, confere aos folhetos uma grandiosidade própria às grandes obras épicas, considerando a caracterização que faz Massaud Moisés (1993, p. 70) do gênero épico através do contraponto com o gênero lírico:

A épica, não [pode ser descrita] no sentido meramente formal, métrico, [pois] caracteriza-se por transmitir a busca ou o encontro duma cosmovisão capaz de conciliar ou harmonizar as antíteses que o mundo revela ao olhar do artista ou do homem de pensamento. Irmã da Filosofia nessa ânsia de integração do Universo numa síntese, nada tem que ver com o decassílabo heróico ou a versificação de acontecimentos históricos. Tanto é épico Homero, Virgílio, Camões como Dante, Baudelaire e Fernando Pessoa. E a poesia em que o poeta se reflete para fora de si, alargando o eu até o limite do nós: na subjetividade do poeta se reflete um povo, uma raça e mesmo toda a Humanidade. Enquanto isso, o poeta lírico, desprezando ou amoldando a si o plano exterior, se dobra para dentro de si, numa autocontemplação narcisista e solitária. A lírica, poesia confessional, expressa os conflitos "pobres", localizados na área da sentimentalidade e do "eu-gosto-você-me-gosta" de que fala Drummond. Poesia de subjetividade de superfície, facilmente captável pelo homem comum, que ali encontra expressos seus próprios e inefáveis sentimentos. Lamartine, Musset, Gustavo Adolfo Becquer, Heine, Garrett, Casimiro de Abreu constituem exemplos de poetas líricos.

É a partir desse "compromisso" do épico em dar resposta aos problemas observados na realidade circundante, que veremos a seguir em folhetos de Rodolfo Coelho e José Pacheco, o cangaceiro Lampião, tão decantado nos cordéis, assumir estranhamente um papel singular no processo reivindicatório e de ânsia de emancipação popular, tão singularmente captada pelos dois cordelistas.

IV " UMA ANÁLISE DE CORDÉIS DE JOSÉ PACHECO E RODOLFO COELHO

4.1. Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho

Como destacamos em capítulo anterior, a figura do cangaceiro Lampião é por demais freqüente na literatura de cordel, constituindo, por essa razão, um ciclo autônomo, com características próprias dentro da literatura popular. Disso resulta que também em José Pacheco da Rocha e Rodolfo Coelho Cavalcante, considerados dois dos mais importantes cordelistas nordestinos, o tema foi bastante explorado, a julgar pelos vários títulos de cordéis dos dois autores em que o nome do "rei do cangaço" é citado.

Antes de considerarmos a obra dos dois autores, porém, torna-se oportuno conhecer alguns detalhes importantes da vida dos dois autores.

De José Pacheco da Rocha sabe-se muito pouco, havendo, inclusive, dúvidas sobre a data de nascimento do autor. Algumas informações são dadas por Gastão (2002, p. 55):

[José Pacheco da Rocha] Nasceu no município de Correntes, Pernambuco, residiu algum tempo na cidade de Caruaru, naquele Estado, como também em Maceió, Alagoas. Poeta popular dos melhores, gostava de escrever estórias de gracejos, mas explorou outros temas da literatura de cordel. Lia e cantava os seus versos. Era de um gênio moderado e possuía a técnica de atrair a matutada. Além de poeta popular bastante fecundo, caracterizado pela jocosidade e variedade de temas de suas composições, dedicou-se a várias atividades paralelas: trabalhou em feiras, ora vendendo folhetos, ora comerciando gêneros alimentícios. É autor entre outros dos seguintes folhetos: A Chegada de Lampeão no Inferno (s.d.); A Grande briga de Lampeão com a moça que virou cachorra (s.d.); O grande debate que teve Lampeão com São Pedro (s.d.); Lampeão e a velha feiticeira (s.d.), além de oito outros folhetos sobre assuntos diversos.

Na antologia de cordéis organizada por Lopes (1983, p. 417-418), outras informações sobre Pacheco são dadas:

Há controvérsia sobre o lugar de nascimento de José Pacheco. Para alguns, ele nasceu em Porto Calvo, alagoas; há quem afirme ter sido o autor de A Chegada de Lampião no Inferno pernambucano de Correntes. A verdade é que José Pacheco, que teria nascido em 1890, faleceu em Maceió na década de 50, havendo quem informe a data de 27 de abril de 1954, como a do seu falecimento. Seu gênero preferido parece ter sido o gracejo, no qual nos deu verdadeiros clássicos. Escreveu também folhetos de outros gêneros.

(...)

José Pacheco foi poeta fecundo. De sua considerável obra, apresentamos apenas alguns títulos.

GRACEJO:

· A Intriga do Cachorro com o Gato

· As Palhaçadas de um Caboclo na Hora da Confissão

· A Propaganda de um Matuto com um Balaio de Maxixe

· A Chegada de Lampião no Inferno

· O Grande Debate de lampião com São Pedro

· A Festa dos Cachorros

OUTROS GÊNEROS:

· A Beata que viu Meu Padrinho Cícero Sexta-feira da Paixão

· Grinaura e Sebastião

· A Mulher no Lugar do Homem

· A Princesa Rosamunda ou a Morte do Gigante

· Os Prantos de Cacilda e a Vingança de Raul

· Peleja de um Embolador de coco com o Diabo

· Os sofrimentos de N. S. Jesus Cristo.

Ao contrário de Pacheco, a biografia de Rodolfo Coelho é bastante conhecida e relativamente bem divulgada, embora muitos dados de sua trajetória, por se confundir com peripécias dos heróis do cordel e por terem sido divulgadas pelo inventivo Rodolfo, mereçam um certo desconto.

Em obra anteriormente citada, Gastão (2002, p. 88), afirma que Rodolfo Coelho Cavalcante Nasceu em Rio Largo, Alagoas, a 12 de março de 1917. Filho de Arthur de Holanda Cavalcante e Maria Coelho Cavalcante. Aos 13 anos de idade deixou o lar paterno e percorreu todo o Norte-Nordeste como palhaço e camelô, lembrando os jograis dos séculos XI e XII. Jornalista, trovador e poeta popular. Membro de várias associações literárias, realizou na Bahia, em 1955, o primeiro congresso nacional de trovadores e violeiros e fundou alguns periódicos como "A voz do trovador", "O trovador" e "Brasil poético". Fixou-se em Salvador, Bahia, onde publicou e vendeu os seus folhetos. Autor, entre outros, dos seguintes: "O barulho de Lampião no inferno"; "A chegada de Lampião no céu"; "A chegada de Lucas da Feira no inferno"; "O encontro de Guabiraba com Lampião"; "O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino"; "Lampião e seus cangaceiros". Sua produção literária alcança número superior a 270 folhetos.

Os fatos descritos de forma sintética por Gastão são minuciosamente descritos por Eno Wanke em uma obra inteiramente consagrada ao registro dos fatos pitorescos do cordelista. É nessa obra, denominada de Vida e luta do trovador Rodolfo Coelho Cavalcante (1983.), que, entre várias proezas inacreditáveis, Rodolfo Coelho, cuja máxima escolaridade foi o terceiro ano primário, com medo do castigo por ter perdido o emprego em uma companhia de telégrafos, fugiu de casa em 1932, chegando a Recife, onde trabalhou fazendo propagandas nas portas das lojas. Só retornaria para casa três meses depois, logo que conseguiu guardar algum dinheiro.

Em 1934, foge novamente de casa, dessa vez com o irmão. Passam a viver de biscates e até mesmo de pequenos trambiques, entre os quais o de vender pedras retiradas do rio como se fossem talismãs com poderes mágicos de cura. Nessa viagem, chegaram a cruzar com Lampião e seu bando, que os capturou, mas, ao verificar a sua insignificância, deixou-os ir, displicente.

Em Conceição do Canindé, no Piauí, onde chega com o irmão em 23 de dezembro, Rodolfo apaixonou-se perdidamente por uma garota chamada Hilda e casou-se com ela apenas 8 dias depois.

Com a mulher, viaja para Salvador, onde nasceu seu filho primogênito, que falece pouco tempo depois. Quando sua mulher engravidou novamente, regressa para Conceição do Canindé, onde nasceu sua filha Israelita.

Em 1942, estabelece-se com a família em Teresina, capital do Piauí, onde tem início, de fato, sua prolífica vida de cordelista, que tem início com Os Clamores dos incêndios em Teresina. O folheto tratava de fato verídico, sobre uma série de incêndios em barracos nos da cidade. Para a população, teria sido o próprio governo o causador dos incêndios, cujo propósito seria o de pôr fim às favelas.

Em agosto de 1945, muda-se mais uma vez para Salvador, onde põe fim definitivo à sua peregrinação. Rodolfo escreveu quase dois mil cordéis. Entre esses, o mais famoso, segundo o próprio Rodolfo, foi A Moça que bateu na mãe e virou cachorra. Escrito no fim da década de 40, o folheto já vendeu centenas de milhares de exemplares, alcançando, até o momento, cerca de quarenta edições.

Além de cordelista, Rodolfo teve destacada atuação como defensor de sua classe, seja solicitando diretamente às autoridades o fim da violência policial para com os folheteiros que mercavam suas obras, seja criando associações representativas dos poetas populares. Ente essas agremiações, contam-se a Associação Nacional de Trovadores e Violeiros (ANTV) e o Grêmio Brasileiro de Trovadores (GBT). Também participou e organizou congressos de poetas populares.

Essa intensa atuação política, somada ao seu talento inquestionável, rendeu-lhe várias honrarias, como a que foi realizada pela Academia Brasileira de Letras, que em uma sessão dedicada a Rodolfo, outorgou ao poeta a Medalha Machado de Assis. Também foi objeto de tese universitária na Universidade de Sorbonne, escrita por Martine Kunz, denominada Rodolfo Cavalcante poète populaire du Nord-Est Brésilien.

O papel de liderança e amor pela classe é destacada por Eno Wanke ao prefaciar a coletânea de poesias de Rodolfo Coelho Cavalcante organizado pela editora Hedra (2000:9): "Rodolfo Coelho Cavalcante (1919-1986) não foi apenas mais um cordelista nordestino. Era também, um líder, um benemérito da classe sofrida e às vezes perseguida, devido à confusão que as autoridades faziam, no início de sua carreira, entre os poetas populares e os camelôs".

Todo o reconhecido, entretanto, não resulta em uma vida de grandes confortos. E assim falece, nas primeiras horas do dia 8 de outubro de 1986, em virtude dos ferimentos causados por um atropelamento automobilístico sofrido no dia anterior.

Dentre os quase dois mil folhetos escritos por Rodolfo, citam-se:

· A Devassidão de hoje em dia

· A Língua da mulher faladeira

· A Maneira da mulher não ter filhos

· A Morte de Getúlio

· A Mulher que foi surrada pelo diabo

· A Volta de Getúlio

· ABC da Carestia

· ABC de Maria Bonita

· ABC do Amor

· Antônio Conselheiro

· Cuíca de Santo amaro: o poeta popular que conheci

· Este mundo está perdido

· Gregório de Matos Guerra: o pai dos poetas brasileiros

· O Boi que falou no Piauí

· O Desencanto da moça que bateu na mãe e virou cachorra

· O Encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino

· Paulista virou tatu viajando pelo metrô

· Tudo na Terra tem seu fim

4.2. Análise dos cordéis de José Pacheco e Rodolfo Coelho

Distantes, talvez, em suas biografias, José Pacheco e Rodolfo Coelho se irmanavam em relação ao talento inquestionável dos dois, o que fazia com que o leitor esquecesse algumas das diferenças mais marcantes, tal como o fato da linguagem de Rodolfo ser mais elevada, menos propensa às feições ortográficas da linguagem mais popular de Pacheco.

O talento dos autores, que os projetou como dois dos maiores nomes da literatura de cordel, pode ser claramente observada nos dois folhetos selecionados por nós para análise: A Chegada de Lampião no Céu, de Rodolfo, e A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco 3.

A publicação de A Chegada de Lampião no Inferno teve grande repercussão, alcançando um alto número de exemplares vendidos. Ilustrado com xilogravuras, o folheto foi lançado pela Editora Prelúdio, de São Paulo, com capa em cores. É um dos cordéis presentes na Antologia da Literatura de Cordel organizada por Sebastião Nunes Batista (1977), demonstrando a grandeza do cordelista, que influenciou vários outros poetas, dentre os quais estão Severino Gonçalves e o próprio Rodolfo Coelho Cavalcante, cuja versão da chegada do rei do cangaço no Inferno, tema freqüente na literatura popular, também tornou-se um best seller nordestino.

Em A Chegada de Lampião no Céu, Rodolfo Cavalcante descreve o momento que Lampião, depois de fugir do Inferno, onde assassinara um e atirara no próprio Lúcifer, força sua entrada no Céu, ameaçando, inclusive, de lançar mão do rifle que trazia consigo. No Céu, Lampião exige uma audiência com Padre Cícero, Maria e Jesus. Em seguida, é instaurado uma espécie de tribunal, no qual Maria, mãe de Jesus, defende o cangaceiro das acusações de Ferrabrás, enviado de Lúcifer. Depois da peleja entre promotoria e defesa, Lampião é sentenciado a passar um período no Purgatório para "alcançar a salvação".

Já em A Chegada de Lampião no Inferno, José Pacheco narra o momento em que Lampião, impedido de entrar no Inferno, ameaça fazer um escarcéu. Em resposta, o diabo reúne um exército de demônios para enfrentar Lampião. O saldo da briga é terrível: além de vários dos homens de Satanás mortos, Lampião provoca um incêndio no mercado local e no armazém de algodão, o que leva o diabo a lamentar o prejuízo. Por fim, impedido de entrar no Céu e no Inferno, Lampião toma caminho ignorado, embora o narrador imagine que talvez tenha o cangaceiro voltado para o sertão, tal como a alma penada de Pilão Deitado, homem de Lampião que teria morrido em trincheira e que contara ao narrador a história descrita no folheto.

Em uma visada ligeira das duas obras, o leitor é atraído de imediato para a contradição dos títulos, o que pretensamente denunciaria uma diferença ideológica no sentido dos autores avaliarem a figura de Lampião: enquanto um põe o cangaceiro no Céu, lugar de absolvição, outro o insere no Inferno, lugar de dores, de castigo e de perdição.

Por outro lado, uma apreciação mais profunda das duas obras, logo evidencia as muitas aproximações entre os cordéis. Observa-se, por exemplo, que a fama de Lampião, mesmo no outro mundo, continua intocada, inquestionável nos dois folhetos. Daí que a simples menção de seu nome provoca temor, o que afirma a grandeza de seus feitos na terra. É por isso que tanto São Pedro no folheto de Rodolfo quanto o diabo no cordel de Pacheco manifestam um claro desconforto ao conhecer a identidade do cangaceiro:

São Pedro desconfiado

Perguntou ao valentão

Quem é você meu amigo

Que anda com este rojão?

Virgulino respondeu:

- Se não sabe quem sou eu

Vou dizer: Sou Lampeão.

São Pedro se estremeceu

Quase que perdeu o tino

Sabendo que Lampeão

Era um terrível assassino

Respondeu balbuciando

O senhor...está...falando

Com...São Pedro...Virgulino!

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofes II e III)

3. A fim de permitir ao leitor desta monografia uma apreciação dos dois cordéis, nem sempre fáceis de serem encontrados, apresentamos a íntegra dessas obras no anexo deste trabalho.

Lampeão é um bandido

Ladrão da honestidade

Só vem desmoralizar

A minha propriedade

E eu [o diabo] não vou procurar

Sarna para me coçar

Sem haver necessidade

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe XII)

Por fim, percebe-se nos dois cordéis uma clara metamorfose no Céu e no Inferno, que perdem as características sobrenaturais, convertendo-se em espaços terrenos, o que permite que Lampião aja como procedia nos sertões nordestinos, onde punia com violência desmedida os fazendeiros que lhe negassem pousada. Por isso, o cangaceiro não hesita em ameaçar o porteiro do Inferno e agir de forma atrevida para com São Pedro ao lhe negarem entrada naqueles lugares:

Lampeão foi no inferno

Ao depois no céu chegou

São Pedro estava na porta

Lampeão então falou:

- Meu velho não tenha medo

Me diga quem é São Pedro.

E logo o rifle puxou

Lampeão disse está bem

Procure que quero ver

Se acaso não tem aí

O meu nome pode crer

Quero saber o motivo

Pois não sou filho adotivo

Pra que fizeram-me nascer?

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofes I e VI)

Lampião disse: - Vá logo

Quem conversa perde hora

Vá depressa e volte já

Eu quero pouca demora

Se não me derem ingresso

Eu viro tudo as avessas

Toco fogo e vou embora

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe IX)

O Inferno, na verdade, mais parece uma repartição pública, no qual o diabo, como chefe, se aboleta no gabinete central.

O vigia disse assim

- Fique fora que eu entro

Vou conversar com o chefe

No gabinete do centro

Por certo ele não lhe quer

Mas, conforme o que eu disser

Eu levo o senhor pra dentro

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe VIII)

O Céu de Rodolfo, por sua vez, é como o descrito no livro bíblico de Jó, ao qual o diabo tem livre acesso:

E disse[ Lampião]: Ó Mãe Amantíssima

Dá-me a minha salvação

Chegou nisto o maioral [o diabo]

Com catinga de alcatrão

Dizendo não pode ser

Agora só quero ver

Se é salvo Lampeão

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofe XIX)

Num dia em que os filhos de Deus [os anjos] vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles ( ... ). E perguntou o Senhor a Satanás : Observaste a meu servo Jó ? porque ninguém há na Terra semelhante a ele ( ... ). Então respondeu Satanás: porventura Jó debalde teme a Deus? Acaso não cercaste com sebe a ele, a sua casa e a tudo quanto tem ? ( ... ). Estende, porém, a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. Disse o senhor a Satanás : Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do Senhor (Bíblia Sagrada: Livro de Jó, capítulo 1, versículos 6 e de 8 a 12 ).

Essa representação, a propósito, é também utilizada por Goethe em sua obra Fausto, ao descrever no "Prólogo no céu" a visita de Mefistófeles (o diabo, a representação do Mal) ao Altíssimo (Deus, o Bem Supremo), resultando em uma "aposta" entre ambos acerca da fidelidade do Doutor Fausto, protagonista da história, aos propósitos divinos, numa clara retomada ao episódio que antecede ao drama de Jó, patriarca bíblico:

MEFISTÓFELES

Já que, Senhor, de novo te aproximas,

Para indagar se estamos bem ou mal,

E habitualmente ouvir-me e ver-me estimas,

Também me Vês, agora, entre o pessoal [ entre os anjos ]

( ... ).

O ALTÍSSIMO

Nada mais que dizer-me tens ?

Só por queixar-te sempre vens ?

Nada, na Terra, achas direito enfim ?

( ... )

Do Fausto sabes ?

( ... ).

MEFISTÓFELES

De forma estranha ele vos serve, Mestre !

( ... )

O ALTÍSSIMO

Se em confusão [ Fausto ] me serve agora,

Daqui em breve o levarei à luz.

Quando verdeja o arbusto, o cultor não ignora.

Que no futuro fruto e flor produz.

MEFISTÓFELES

Que apostais ? perdereis o camarada;

Se o permitirdes, tenho em mira.

Levá-lo pela minha estrada !

( ... ).

O ALTÍSSIMO

Também nisso eu te dou poderes plenos;

( ... )

( Fecha-se o céu, os arcanjos se dispersam ).

A partir de todas essas aproximações entre os cordéis de Pacheco e de Rodolfo é que se pode perceber o caráter de revanche poética, de contestação popular às condições de vida das camadas mais sofridas, subjacente às duas narrativas.

Observemos, por exemplo, que embora deslocada para os lugares do além-morte, é a vida terrena, o dia-a-dia de dores a matéria-prima dos dois cordelistas. Isso se evidencia, entre outras evidências, a partir da forma como Pacheco descreve o Inferno, atribuindo ao reino de Lúcifer as mesmas características do sertão nordestino, ou, mais propriamente, do Polígono das Secas, região do semi-árido nordestino conhecida como caatinga, uma área com cerca de 700.000 km de extensão marcada pelos longos períodos de estiagem:

Reclamava Satanás

- Horror maior não precisa

Os anos ruins de safra

E mais agora essa pisa

Se não houver bom inverno

Tão cedo aqui no inferno

Ninguém compra uma camisa

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe XXIX)

Nesse Inferno-aqui-e-agora, Lampião peleja com um diabo "humanizado", pois, totalmente despido de suas feições e atitudes sobrenaturais, o "senhor das trevas" comporta-se como um ser humano comum, o que explica sua surpresa, entre cômica e inacreditável, de somente pessoas de má índole baterem às portas do Inferno:

O vigia foi e disse

A Satanás no salão:

- Saiba Vossa Senhoria

Aí chegou Lampião

Dizendo que quer entrar

E eu vim lhe perguntar

Se dou-lhe o ingresso ou não

- Não senhor, Satanás disse

Vá dizer que vá embora

Só me chega gente ruim

Eu ando muito caipora

Estou até com vontade

De botar mais da metade

Dos que tenho aqui pra fora

Lampeão é um bandido

Ladrão da honestidade

Só vem desmoralizar

A minha propriedade

E eu não vou procurar

Sarna para me coçar

Sem haver necessidade

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofes X e XI)

A transformação do diabo em um ser humano comum evidencia o deslocamento da luta para outra arena. O que ocorre aqui é a repetição do mecanismo épico, no qual o herói (e o vilão) se transmuda no coletivo, encarnando os interesses e valores do povo. Tal como o boi fujão, descrito no capítulo anterior, Lampião torna-se figura emblemática, concentrando em sua personalidade ambígua o desejo de subversão popular. Sua luta com o diabo representa a luta do povo contra os poderes terrenos, seja patrão ou governo, ou contra as vicissitudes trazidas com as secas, as condições climáticas adversas.

É por isso que, nos cordéis de Pacheco e Rodolfo em análise, Lampião age apoiado em uma justificação tácita do povo. Regendo-se pela lógica de pensamento e reação popular, Lampião age da mesma forma que agiria o sertanejo submetido às condições de extrema penúria e sofrimento. Lampião só ataca porque foi atacado, é o que defende o povo inculto. Isso fica claro nos argumentos aos quais o cangaceiro recorre para livrar-se da punição eterna:

Chegando no gabinete

Do glorioso Jesus

Lampeão foi escoltado

Disse o Varão da Cruz

Quem és tu filho perdido

Não estás arrependido

Mesmo no Reino da Luz?.

Disse o bravo Virgulino

Senhor não fui culpado

Me tornei um cangaceiro

Porque me vi obrigado

Assassinaram meu pai

Minha mãe quase que vai

Inclusive eu coitado.

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofe XIII)

Como se percebe, Lampião em seu favor, lembra o episódio da morte do pai pelos posseiros da fazenda família. Isso equivale, na lógica do sertanejo, a uma justificativa que não deixa margem para questionamentos, haja vista apoiar-se na vingança, na retribuição à moda da lei do talião do "dente por dente, olho por olho". O povo, em geral, defende essa vingança, transmudada em "justiça". É por essa razão que ambos os cordelistas, porta-vozes do pensar do povo, se não absolvem de todo, também não deixam de aliviar a punição de Lampião.

De fato, em ambas as histórias Lampião não é castigado propriamente, já que sua pena não passa por uma permanência duradoura no Inferno: enquanto no cordel de Rodolfo, o fim de Lampião é o Purgatório, em Pacheco o destino de Lampião, embora incerto, parece ser um retorno ao sertão:

Disse Jesus: Minha Mãe

Vou lhe dar a permissão

Pode expulsar Ferrabrás

Porém tem que Lampeão

Arrepender-se notório

Ir até o " purgatório"

Alcançar a salvação.

(A Chegada de Lampião no Céu, estrofe XXX)

Leitores vou terminar

Tratando de Lampeão

Muito embora que eu não posso

Vos dar a resolução

No inferno não ficou

No céu também não chegou

Por certo está no sertão.

(A Chegada de Lampião no Inferno, estrofe XXX)

Entretanto, a minimização da pena não implica na eliminação total do castigo. É que os cordelistas não podem pôr de lado os crimes sabidos, as crueldades do cangaceiro aqui na terra. Com isso, reafirma-se o caráter ambíguo desse herói popular, consagrada pela vida do pavor que despertava, e não da admiração e da nobreza de seus gestos.

Portanto, o movimento retórico que confunde os lugares da outra vida com a terra, operado através da reinvenção do Céu e Inferno pelos cordelistas é destacado por Kunz (2001, p. 62), ao procurar afirmar o papel da literatura de cordel como um instrumento de contestação, assim explicado pela autora:

À realidade opressora do " aqui e agora" denunciada nos folhetos, o poeta opõe um tipo de combate dado no modo imaginário e cujas armas são a utopia, o mito, a lenda, o milagre... Pela exploração do imaginário e da memória coletivos, ele procura, através da escrita, a livre circulação do ser dentro de si mesmo, fora de si e além da morte. Do mecanismo compensatório à afirmação da força reivindicativa, entre a miséria efetiva, vivi­da, e o poder de intervenção irreal, ergue-se o poeta e sua palavra. As reimpressões sucessivas de alguns clássicos da literatura de cordel testemunham o sucesso dessa fonte de inspiração: Viagem a São Saruê, de Manoel Camilo dos Santos, A Chegada de Lampião no Inferno de José Pacheco, ou o Romance do Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Resende.

A partir dessas considerações, a autora, referindo-se ao cordel A Chegada de Lampião no Céu, sintetiza as intenções de Rodolfo Cavalcante subjacentes ao texto:

(...) a reivindicação simbólica efetua-se em dois níveis: de um lado, a morte não é tratada como o fim da vida, mas como a imagem inversa da vida. Aos homens que não têm poder real sobre suas próprias vidas, o poeta propõe um poder irreal sobre a morte. A morte lhes pertence.

Por outro lado, o cangaço, fenômeno social decorrido da miséria cotidiana, torna-se o símbolo da opressão e da injustiça sofridas pelas populações do Nordeste. O bandido vira herói mítico, sua epopéia é exemplar: só, embora o grupo fosse um elemento característico do cangaço, o cangaceiro, arquétipo do herói invencível, desafia a morte, afugenta o diabo, obtém promessas de absolvição. Ele propõe de modo individual e fictício, uma forma de combatividade prestigiosa, imagem inversa do sonho de ascensão social que não devia alcançar êxito.

Da História à lenda, da vida à pós-vida, do poder carismático do líder à invencibilidade mítica: o sonho supera a mentira, a mitificação ultrapassa a mistificação.

Como se pode perceber pelas palavras de Kunz, a conversão de Deus e do Diabo em uma espécie de "executivos eficientes de uma agência de viagens" e da morte em "um vis­to temporário", fazem parte da mesma ação que transforma Lampião em um "herói incansável e invencível que é inúmeras vezes mandado para o céu ou para o inferno, mas sempre volta".

É assim que em A Chegada de Lampião ao Céu e em A Chegada de Lampião ao Inferno, Rodolfo Coelho Cavalcante e José Pacheco da Rocha descortinam aos olhos de seu leitor, por meio de um lógica de subversão, o desejo de, negando a realidade que é opressora, afirmar toda a potencialidade reivindicatória do cordel, lançando mão da ficção como um meio genuíno e eficaz de libertação e afirmação da identidade e da dignidade espoliada pelo descaso e pela violência.


V " CONSIDERAÇÕES FINAIS


A literatura de cordel, enquanto veículo de expressão do imaginário popular, refaz os caminhos enviesados do olhar matuto, reconstitui a maneira do sertanejo reagir ao mundo e, mais do que isso, deixa pistas do sistema complexo sobre o qual se edifica seu sentimento de contestação.

Manifestação artística viva, em sintonia estreita com a cosmovisão popular, a literatura de cordel oferece aos pesquisadores um espaço sempre aberto de reflexão sobre uma maneira peculiar, por vezes contraditória, mas não menos preciosa, de se pensar o mundo e de afirmar a identidade, traçando caminhos de subversão e de liberdade.

Cordelistas brilhantes, Rodolfo Coelho Cavalcante e José Pacheco da Rocha, a despeito de suas diferenças, participam com seu talento de um mesmo projeto de reivindicação e protesto, convertendo o espaço poético em arena de luta.

É que o povo sofrido, alimentado por um sentimento de inferioridade, constrói suas próprias maneiras de dar sentido a uma existência sofrida e de recuperar um pouco da dignidade ofendida pelo descaso das autoridades.

Nesse movimento de negação da realidade e afirmação de uma nova ordem, na qual o povo se vinga do opressor, a literatura de cordel se oferece como um veículo da revolta artisticamente elaborada, dando à ficção a potencialidade da luta e da subversão.

Em A Chegada de Lampião ao Céu e A Chegada de Lampião ao Inferno, a realidade é continuamente desafiada, subvertida, reconstruída. Morte e Vida se confundem, assim como o terreno e o celestial se convertem em uma coisa só.

Nessa afronta à lógica, o cangaceiro Lampião torna-se herói, vingador do povo. Ele destrói o Inferno, desafia o próprio diabo, realizando por nós o projeto secreto de ir à forra, de negar a realidade que nos oprime.

É assim que, além do enredo propositalmente surreal, Rodolfo Coelho e José Pacheco permite-nos entrever a complexa estrutura profunda subjacente, onde a alma simples do povo decanta sua maneira de dar equação aos problemas do mundo.

O Inferno é o próprio sertão, afirmando o dito popular de que "O inferno é aqui mesmo". Por isso o diabo descrito por Pacheco lamentará sob a destruição de seu armazém por Lampião, esperando que não se siga a esse desastre o estio. Não é para o outro mundo que o cordelista lança os olhos, mas em torno de seu próprio sofrimento, de seu próprio aqui-e-agora de dores e angústias.

É por isso que, para espanto dos que não conhecem a realidade do sertanejo, o mito do cangaço se reafirma como um modo de resistência e o cangaceiro como um ser emblemático de uma luta desesperada de redenção.

O herói cangaceiro, entretanto, ao se afirmar pelo terror e não pela admiração, pelo respeito ou pela nobreza de seus gestos, torna-se ambíguo, contraditório, mas não menos bravo, aguerrido, desafiador. E assim se refaz, em outro contexto, a engrenagem épica que gerou homens como Aquiles, Ulisses, Enéias e Vasco da Gama.

Não é sem razão, portanto, que nos cordéis analisados neste trabalho, as contradições se evidenciam já a partir dos títulos das obras: Rodolfo e Pacheco vacilam em situar seu anti-herói cangaceiro, que não pertence nem ao Céu e nem ao Inferno. A saída, é o Purgatório, ou mesmo deixa-lo seguir livre, pelos caminhos do sertão, desafiando mais uma vez a lógica da vigília através da lógica ficcional.

É nessa perspectiva que o cordel se avizinha das grandes epopéias, posto investir à seu modo na construção do herói, responsável pela materialização dos projetos da coletividade, embora só com esforço se possa conceber o cangaceiro como protótipo dessa realização.

A despeito disso, pode-se, indubitavelmente, afirmar a presença de um componente reivindicatório na literatura de cordel, ainda que difuso e com uma lógica própria, seguindo de forma enviesada, vacilante, em ziguezague.

Nesse contexto é que compreendemos toda a estrutura ficcional de A Chegada de Lampião no Céu e de A Chegada de Lampião no Inferno. Através da subversão à ordem, à lógica, Rodolfo Coelho e José Pacheco, propõe um revés na realidade da qual o povo é sempre inferiorizado.

A ficção liberta pela subversão. A morte não é fim, mas apenas um movimento de ponta-cabeça da vida, no qual é dado aos pobres se vingarem. Nesse processo de reviravolta, de negação, compreende-se porque facínoras como os terríveis cangaceiros são elevados à condição de heróis.

E assim, ligam-se as pontas soltas, agregando-se em um só projeto o cordel, o cangaço e a contestação.


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VII " SOBRE A AUTORA:

Tânia Maria de Sousa Cardoso nasceu a 13 de julho de 1972, natural da cidade de São José da Lagoa Tapada, alto sertão do Estado da Paraíba. Conviveu toda infância e juventude ouvindo pelas rádios os desafios de violeiros e repentistas, o que muito influenciou sua formação e sua personalidade sertaneja.

É filha de Francisco de Assis Damião e Francisca Pereira de Sousa. Casada com o geógrafo José Romero Araújo Cardoso, professor do departamento de geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte " UERN. O casal tem um filho de nome José Romero Araújo Cardoso Júnior, nascido em 14 de outubro de 1995, em João Pessoa, capital do Estado da Paraíba.

Graduou-se em Pedagogia na Universidade Federal da Paraíba " Campus V " Centro de Formação de professores, atual Universidade Federal de Campina Grande, na cidade de Cajazeiras do Padre Rolim.

Defendeu monografia de especialização em literatura brasileira promovida pela Faculdade de Letras e Artes- FALA da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, cujo texto embasa a presente publicação da Fundação Vingt-un Rosado/Coleção Mossoroense.

A autora faz parte da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço e do Grupo de Estudos Benigno Ignácio Cardoso D"Arão.

  Web site: fmmdl.sites.uol.com.br/romero/cordel.htm  Autor:   Tânia Maria de Sousa Cardoso





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