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O CANGAÇO EM FOCO
Desde: 28/02/2011      Publicadas: 854      Atualização: 09/11/2013

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 HISTÓRIAS SERTANEJAS

  26/06/2012
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A casa no sertão

Você está convidado a fazer um passeio por lembranças, que talvez tenha, talvez pertença a alguém de sua família, mas que descrevem uma cultura sertaneja. Trata-se de uma casa, que nas lembranças do arquiteto Eduardo Falcão, são sua própria história e infância. Uma casa sertaneja.

A casa no sertãoA casa no sertão

Você está convidado a fazer um passeio por lembranças, que talvez tenha, talvez pertença a alguém de sua família, mas que descrevem uma cultura sertaneja. Trata-se de uma casa, que nas lembranças do arquiteto Eduardo Falcão, são sua própria história e infância. Uma casa sertaneja.

Para que essa experiência pudesse ser especial e fiel, Eduardo anotou cada detalhe do que recordava para que os detalhes estivessem presentes na proposta do Tapera Cor, um espaço que será montado ao lado do Memorial da Resistência, dentro da programação do Mossoró Cidade Junina, que tende a ser um lugar cheio de objetos que tratam dessa cultura popular.

"As pessoas estão convidadas a entrar nessa casa e conhecer o que compõe a vida do sertanejo. Extraí muito de minha própria vivência, pois fui criado numa casa assim", explica Eduardo, que descreveu de forma poética suas lembranças e as entregou para que uma equipe de dez pessoas saísse em campo em busca dos objetos e do cenário pensado por ele para a Tapera Cor.

O espaço só estará disponível aos visitantes a partir do dia 20 de junho, mas enquanto o momento não chega, é o próprio Eduardo que relata o cenário da casa sertaneja.

A CASA

Uma casa com alpendre na frente, portas e janelas largas que recebe o visitante sempre com um convite de comida feita no forno à lenha. À tardinha, quando o sol se prepara para se deitar, sempre acontece uma palestra regada com um café, bem fraco, porém bem quentinho, passado naquela hora num coador de pano.

Em anos de fartura juntam-se os amigos para a debulha nas noites de lua. Nessa noite tem cachaça e tem um grupo jogando baralho, um jogo chamado sueca (quando tem quatro pessoas) ou bacarás.
Nessa casa, há uma pequena mesa com um rádio de pilha que está sempre ligado na rádio rural, especialmente na hora da coalhada de Seu Mané, pois coincide com a hora da palestra no alpendre. Nesse programa, tem uma sessão de notas e avisos e serve para as pessoas da rua (centro urbano do município) mandarem recados para os moradores da fazenda.

Fora isso, tem muitas redes desarmadas presas nos paus das paredes de taipa com cordas de sisal. Essas redes são dos filhos homens, eles não têm quarto. Vez ou outra se acha um baú com as roupas dos meninos e rapazes. Já chegou a ter foto do velório do avô paterno, o caixão sobre as cadeiras da mesa (detalhe sórdido).

As lamparinas a querosene estavam em todos os cômodos e os lampiões a gás butano, que eram bem mais caros, geralmente não passavam de dois e eram usados raramente. As paredes próximas aos locais das lamparinas eram pretas de tinta. Fósforos também eram bastante utilizados, pois além de acenderem a luz que "alumiaria" o escuro da noite, serviam para acender os brejeiros feitos de fumo de pacote enrolados num papel de seda, que eles chamavam de papelim. Na falta do papelim, que só era comprado quando iam para feira uma vez por semana " geralmente aos sábados " o fumo era apertado em palhas de milho secas.

Geralmente só o quarto do casal tinha porta para a sala e o das filhas tinha acesso pelo quarto do casal. Essa é uma questão cultural em que as filhas eram vigiadas pelos pais para não irem se "danar" por aí. O mobiliário era muito simples. Uma cama de casal e um grande baú para guardar as roupas, uma rede desarmada e um santuário ou oratório no quarto do casal, uma cama de solteiro e um guarda-roupas, com muitas fotos de Roberto Carlos coladas na porta, no quarto das filhas. A rede também não podia fazer falta, geralmente a cama era para filha mais velha.

Na cozinha tinha arupemba para fazer pamonha, umas treliças de madeira que enformavam as cocadas, o ralador feito de lata furada com um prego, muito jerimum e melancia num canto de parede, melão de cheiro, quiabo e maxixe, feijão de corda, sacos de farinha e açúcar. Manteiga da terra e muitos vidros cheios de pregos, parafusos e porcas. Sabão em barra e bucha de pepino.

Nesta casa não podia faltar os ramos de uma palmeira qualquer, que tinha sido bentos no domingo de ramos da semana santa, esses ramos, juntamente com Santa Barbara, protegiam as casas das tempestades. Eles eram queimados e com as cinzas se desenhava uma cruz atrás da porta principal da casa.

O leite é tirado duas vezes por dia. De manhã cedo o leite é para venda ou fabricação de queijos de coalho, coalhada e para ser tomado in natura. Aos sábados à tarde e domingos de manhã os proprietários da fazenda vão com seus filhos tomar o leite tirado na hora quente e espumante, cada um sai de casa com seu copo já com o açúcar e o Nescau.
"Ah, como era bom tirar as sementes de dentro dos pepinos", lembra Eduardo Falcão.

Relembre o cenário mais frequente numa casa sertaneja
Alpendre - Tamboretes cobertos com couro de bode, cadeira X, cadeira de fitilho (balanço), arreios (selas, cangalhas, cabrestos, esporas, chicotes, chibatas) baladeira, espingarda bate-bucha. Brinquedos das crianças - panelinhas de barro para cozinhadinho, peões, minirroladeiras feitas com latas, não de leite (de Nescau) e um arame, tem cavalinho de talo de carnaúba, tem os cascos do cavalo feitos de quenga de coco seco. Roladeira, piso de pedra calcária.

Terreiro - Árvores secas, chão argiloso, bode, carneiro, peru, pato, galinha, galo, porco, guiné, uma carroça com dois tonéis que servem para buscar água no açude ou na cacimba, duas latas penduradas em uma forquilha, um sol quente que chora os olhos, pintos ciscando, o teto é o próprio céu que de tão quente perde o azul. Tem um cercado bem ali com poucas rezes magras que abastecem os botijões de leite que estão ali num canto para serem lavados.

Sala da frente - Uma pequena mesa com um rádio de pilha que está sempre ligado na Rádio Rural (990kHz), especialmente na Hora da Coalhada de Seu Mané, pois coincide com a hora da palestra no alpendre. Fora isso, tem muitas redes desarmadas presas nos paus das paredes de taipa com cordas de sisal. Tem a imagem do Coração de Jesus e do Coração de Maria, tem retratos dos donos da casa coloridos a mão.

Sala de jantar - Mesa com cadeiras que serve muito mais para passar roupa com um ferro à brasa do que para fazer refeições. As cadeiras, geralmente, estão no alpendre e quando estão na sala é para apoiar as roupas que estão sendo passadas. Tem um guarda-louça com um conjunto Colorex, que não é do dia a dia. Os utensílios da diária são de ágata e estão guardados na cozinha. De um certo tempo para cá apareceram os espelhos com moldura laranja próximos a uma prateleira que continha escovas de dentes, pasta, barbeador de gilete, pente e até uns pequenos cabides que ficavam umas toalhinhas de mão. Nessa sala, também tinham dois potes com água de beber com as bocas cobertas com umas touquinhas de pano de algodão bem branquinhas. Os copos de alumínio eram guardados em cabides inclinados (para escorrer o sobejo que ficava no fundo do copo) presos à parede. O chá era de tijoleira, assim como era todo o interior da casa.

Cozinha - A cozinha, geralmente, era anexa a um alpendre que pode ser considerado como uma área de serviço, pois era lá que se lavavam as louças e as panelas. Tem pilão, chaleira de ágata e um bule no qual coa o café. A água numa bacia de zinco, ágata ou alumínio era trazida da cisterna, do barreiro, do açude, da cacimba ou do rio. O mobiliário da cozinha era composto por um fogão à lenha que, geralmente, era de alvenaria, pois os de ferro fundido ficavam nas casas grandes, um guarda-mantimentos (baú), uma pequena estante para os utensílios do dia a dia, e presos ao teto existiam algumas prateleiras com os queijos, carne-de-sol e linguiça. Um rabo de raposa tinha que estar pendurado no teto para espantar animais tipo ratos e morcegos. E ali, ao lado, as cascas de laranja sendo desidratadas para virarem chá.

Banheiros - Eram precários. Geralmente, tinham um tanque de alvenaria com água para os asseios. Penicos faziam as vezes dos sanitários, especialmente as cartolas, que eram penicos bem mais altos. Havia de alumínio e de ágata. Cuias feitas de cabaça e bruxas de pepino pendurados na parede. Chão de cimento queimado.
  Web site: www.defato.com/noticias/1823/a-casa-no-sertao  Autor:   www.defato.com


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