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O CANGAÇO EM FOCO
Desde: 28/02/2011      Publicadas: 854      Atualização: 09/11/2013

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 MULHERES NO CANGAÇO

  17/07/2011
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Anel de ouro, um dos símbolos do cangaço.

*FOTOGRAFIA: O autor do texto, Charles Garrido, ladeado por Sila e Adilia

Anel de ouro, um dos símbolos do cangaço.
Anel de ouro, um dos símbolos do cangaço.
Por: Charles Garrido

"Mulher, ser doce e angelical; não por acaso as bençãos celestiais caíram sobre ti com a incumbência da maternidade".

Na época medieval dizia-se que o "sexo frágil" abrandava o coração do guerreiro. Porque não usarmos esse exemplo ao citarmos o quanto foi importante a entrada da figura feminina ao cangaço, inclusive contrapondo-se à visão teórica machista que diz: mulher deve esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque. Creio ser bem melhor parafrasear o grande nordestino Otacílio Batista (em memória) quando o mesmo cita em uma de suas estrofes:

"A mulher tem na face dois brilhantes, condutores fiéis do seu destino, quem não ama o sorriso feminino desconhece a poesia de Cervantes".

O ano era mil novecentos e noventa e nove, eu então com vinte e três anos às vésperas de realizar um grande sonho de infância; percorrer o rastro dos cangaceiros. Tal fato talvez não fosse tão difícil acontecer, entretanto, ter a honra de realizá-lo ao lado de quem foi personagem, vivenciando aquela época tão difícil nas caatingas sertanejas, certamente abrilhantaria ainda mais o tento. Ilda Ribeiro de Souza, nossa querida Sila, marcada pelo destino; antes, durante e após o cangaço.

Pois, uma vez cangaceira; cangaceira para a vida!

Dois de fevereiro: Ano já citado anteriormente é chegado o grande dia. Partindo de Fortaleza alguns pesquisadores e, sobretudo curiosos saem em busca do desconhecido, do inesperado, e porque não dizer do lúdico, pois todos nós que amamos o tema em questão, de certa maneira temos interiormente a figura estereotipada de seu próprio cangaceiro. Sete estados nordestinos percorridos, inúmeros relatos, depoimentos, paisagens e o melhor ainda estava por vir.

Quatro de fevereiro: Todo o grupo estava hospedado em um hotel no município sergipano de Canindé do São Francisco e no dia seguinte iríamos chegar ao ponto crucial da viagem, visitar a Grota do Angico, local do último combate do Rei do Cangaço. Ledo engano, pelo menos de minha parte.

Gravando documnetário em Angico.

Cinco de fevereiro: É chegada à hora do momento mais esperado, todos já estão de pé para o café da manhã. Dois veículos saem rumo à Piranhas, cidade alagoana às margens do Rio São Francisco. O combinado seria apanharmos o guia responsável pelo trajeto de barco até o local. Ao chegarmos, todos descem dos veículos, entretanto; Sila, que estava comigo pede: - Espere um pouco meu filho.

Ao voltar os olhos para a velha ex-cangaceira sentada ao banco traseiro do carro, deparei-me com uma cena que marcaria para sempre minha memória; lembro-me como se fosse hoje, embora já passados onze anos, olhando para aquela mulher que até bem pouco tempo só a conhecera através de livros de história, a vi levantar o braço esquerdo e com uma das mãos retirar de um dos dedos um dos adereços mais utilizados pelos cangaceiros e diz: - Nessa nossa primeira visita à Grota do Angico, quero te dar uma lembrança; esse anel de ouro que era um dos símbolos da nossa luta.

Essa frase; audível à época, hoje ainda soa como um badalar de sino incessante aos meus ouvidos, fazendo-me lembrar sempre que nós, os verdadeiros amantes dessa cultura tão massacrada e por diversas vezes discriminada, temos a obrigação de honrá-la, divulgá-la e, sobretudo; deixá-la como um legado para a posteridade.

Sila deixou-nos no dia 15 de fevereiro de 2005 em São Paulo.


Charles Garrido é Pesquisador.
Fortaleza " CE
charlesgarrido@hotmail.com
(85) 8897 - 8090
  Web site: lampiaoaceso.blogspot.com/search/label/As mulheres  Autor:   Por: Charles Garrido - Lampião Aceso


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