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O CANGAÇO EM FOCO
Desde: 28/02/2011      Publicadas: 854      Atualização: 09/11/2013

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 MULHERES NO CANGAÇO

  24/08/2011
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Reminiscências de Dadá


A primeira vez que vi Dadá estava na companhia do saudoso escritor (figura lírica)
Álvaro de Sá Nunes Meira, na porta do edifício Thêmis, Praça da Sé. Ela se retirava do prédio,
arrimada as suas muletas, e Álvaro disse que aquela senhora fora casada com um homem
historicamente importante.

Reminiscências de DadáReminiscências de Dadá
Oleone Coelho Fontes

A primeira vez que vi Dadá estava na companhia do saudoso escritor (figura lírica)
Álvaro de Sá Nunes Meira, na porta do edifício Thêmis, Praça da Sé. Ela se retirava do prédio,
arrimada as suas muletas, e Álvaro disse que aquela senhora fora casada com um homem
historicamente importante.

Homem historicamente importante! A história tem destas, tanto consagra o grande
homem quanto o "grande homem pelo avesso". O grande homem a quem Álvaro Meira se
referia fora eleito perante a história pelo nome de Cristino Gomes da Silva Cleto. Atendia pela
alcunha de Corisco ou Diabo Louro. A mulher apontada, por Álvaro Meira, era Sérgia da Silva
Chagas, esta semana falecida aos 78 anos.

Lá estive, no jardim da saudade, para levar meu último abraço a quem soube viver
com dignidade, com elegância e com alegria, mesmo quando nas hostes de Corisco, o
cangaceiro que dizem ter sido malvado e sangrento.

Enquanto não tinha lugar o sepultamento, compusemos, o cronista e Francisco Teles
(também grande amigo de Dadá), reminiscências de uma vida voltada para fuga e tiroteio nas
caatingas. Sim, porque toda a conversa de Dadá sempre terminava caindo em Corisco, a quem
ela amou desde os 13 nos. Amor que resistiu à morte do Demônio Ruivo e que o cineasta Zé
Umberto garante ter sido assassinato, uma vez que Corisco, quando perseguido, já tinha sido
anistiado. mataram-no á procura dos 30kg de ouro que ele carregava na patrona e do muito
dinheiro amealhado no papo-de-ema.

Francisco Teles, homem de letras, fundador e presidente da Federação Baiana de
Escritores, um dia, faz muitos anos, me apresentou ao segundo marido de Dadá, Alcides
Bartolomeu Serafim Chagas. Apertei a mão daquele vulto esguio, assarazado e disse: "É um
prazer conhecer o capitão Corisco!" Alcides pulou como um gato, olhos esbugalhados: "Que
Corisco, meu chapa, sou Alcides, seu criado, pintor de paredes".

Só anos mais tarde fui conhecer Dadá pessoalmente, ela já morando na Mussurunga.
Mas quando ela vivia no Barbalho acontecia de eu cruzar por sua porta e vê-la, e soltava um
grito: "Dadá!", que ela respondia com um aceno e outro berro.

Me lembro do dia em que bati em sua porta, na Mussurunga, na companhia de Sérgio
Valente Coni Moura. Fomos muito bem recebidos por Dadá, que muito conversou de sua vida,
suas dificuldades, seus amigos, seus filhos, netos e bisnetos. E fatalmente a conversa rolou
para o cangaço. Quando ela falava de Corisco se transformava. Corisco fora a peça mais
importante de sua vida, a quem ela deu amor sempre. E sempre tinha um argumento para
defendê-lo quando apontávamos este ou aquele episódio no qual o Demônio Ruivo fizera jorrar
sangue, como o caso de Herculano Borges.

Daquele longo bate papo num sábado à tarde, sobrou a lembrança de uma terrível dor
de cabeça e uma grande amizade que não terminou com a morte de Dadá. Segundo Cascudo,
as pessoas que nos merecem afeto continuam vivas sempre em nossos corações e mentes,
independentemente de morrerem ou desaparecerem de nosso campo visual.

1 Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço - SBEC
  Autor:   Oleone Coelho Fontes


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